Um Mundo Dividido: mercado mundial, as relações interestatais e o advento da Era Contemporânea (1870-1914)

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Este trabalho tem por objetivo discutir a relação entre o nascimento do mundo contemporâneo, na interpretação de Geoffrey Barraclough, o surgimento do mercado mundial sob o capitalismo industrial, e as relações interestatais entre 1870-1914. Como

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  FEVEREIRO 2016 – MAIO 2016   Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política 43 revista.sep.org.br  Resumo E ste trabalho tem por objetivo discutir a relação entre o nasci-mento do mundo contemporâneo, na interpretação de Geo-ffrey Barraclough, o surgimento do mercado mundial sob o capitalismo industrial, e as relações interestatais entre 1870-1914. Como hipótese, sugere-se que as visões apologéticas a respeito das virtudes da integração econômica global devem ser relativizadas diante da indisso-ciabilidade histórica entre o mercado mundial e as demais “influências formativas” do mundo contemporâneo, todas tendentes ao acirramento do conflito interestatal. Desse modo, conclui-se que o mercado mun-dial não só se desenvolveu a partir de um “mundo dividido”, como foi – e segue sendo – vetor de aprofundamento dessa divisão. A análise fundamenta-se na compreensão dialógica das “influências formativas” tal como desenvolvida por Barraclough, e emprega dados compilados a partir das bases da NBER e de trabalhos estatísticos da OCDE. Palavras-chave:  mundo contemporâneo; mercado mundial; relações interestatais; conflito; desigualdade. Classificação    JEL:  N10; N01; N13; N15. Abstract This paper aims at discussing the relationship among the birth of the contemporary world, according to Geoffrey Barraclough, the UM MUNDO DIVIDIDO: MERCADO MUNDIAL, AS RELAÇÕES INTERESTATAIS E O ADVENTO DA ERA CONTEMPORÂNEA (1870-1914) DANIEL DE PINHO BARREIROS Área de História Econômica, Instituto de Economia da UFRJ. Programa de Pós-Gra-duação em Economia Política Internacional.  65 REVISTA DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ECONOMIA POLÍTICA43 / fevereiro 2016 – maio 2016 emergence of global markets under the industrial capitalism, and interstate relations between 1870 and 1914. As hypothesis, it is suggested that apologetic visions about the virtues of global economic integration must be relativized due to the historical inseparability between the world market and other “formative influences” of the contemporary world, all of which tend towards the intensification of interstate conflict. Conclusions point out to the fact that world market not only developed itself from a “divided world”, but keeps on being a deepening vector of this division. The analysis is based on dialogic understanding of the “formative influences” as developed by Barraclough, and uses data compiled from NBER databases and OECD statistical works. Keywords:  contemporary world; world market; interstate relations; conflict; inequality. 1. Mundo menor, hiatos maiores Se a proximidade espacial entre os povos, a ho-mogeneização de padrões culturais e institucio-nais, a intensificação do fluxo de bens, capitais e serviços, e a integração dos espaços econô-micos nutrem, no senso comum, algum poten-cial para minimizar as disparidades de poder (entendido de forma ampla) entre os Estados nacionais, seria ali, naqueles anos pioneiros de 1870, no nascedouro da Era Contemporânea, que o mundo devia estar se tornando menos desigual e mais pacífico. A vantagem da retros-pecção, de que usufruem o olhar cotidiano e o do estudioso da história econômica, permite a qualquer um, com breve exercício crítico, pôr um ponto de interrogação nessa narrativa e questionar qualquer aludida relação positiva entre a integração mundial e a paz. Não é bem assim, contudo, que pensam os arautos da glo-balização, nas suas pregações sobre as virtudes dos mercados livres e do “encurtar das distân-cias” no século XXI. Esses são fenômenos que em sua versão atual podem ter virtudes (muitas ou poucas, ainda que nenhuma ligada à equa-lização das relações de poder entre os Estados nacionais), mas, historicamente, compartilham dos vícios de seus congêneres do século XIX,  já que com eles guardam não só uma relação genética, mas de continuidade. Para que se exerça alguma tensão sobre a atitude da inte-lectualidade “globalizante”, esse artigo enfatiza fenômenos com conteúdo menos otimista, todos ligados à relação entre o surgimento do mer-cado mundial capitalista e as relações interes-tatais na Era Contemporânea, sem a pretensão de reinventar a roda, mas de agregar mais uma peça nesse quebra-cabeça de interpretações sobre as “srcens do nosso tempo”.  66 Geoffrey Barraclough, na Inglaterra da década de 1960, sugeriu que o nascimento do mundo contemporâneo fora obra de influências forma-tivas que, surgidas àquela altura ou em passado pouco mais distante, convergiram funcional-mente por volta das décadas de 1870-1890, lenta-mente esgotando ou ressignificando caracteres estruturais 1  conformadores do mundo dito “moderno” (surgido do rescaldo do Renasci-mento e das revoluções burguesas dos séculos XVI-XVIII, e em plena maturação nas décadas de 1850-1860). Barraclough propôs que um olhar histórico sobre fenômenos ocorridos após as úl-timas duas décadas do século XIX precisaria re-pousar sobre “um novo enquadramento” e sobre “novos termos de referência”, diferentes daque-les empregados para a análise da era “moderna”, especialmente porque a história do mundo con-temporâneo seria, forçosamente, uma história mundial, algo que a tornaria qualitativamente diferente da história que lhe precedeu. Esse ca-ráter global seria devido ao fato de grande parte das influências formativas 2  desse novo mundo provir de fenômenos ocorrentes em espaços sócio-históricos extraeuropeus, o que demanda-ria um abandono da perspectiva eurocêntrica, para bem da análise histórica, antes de qual-quer tomada de posição política (Barraclough, 1976, p. 11-12). É sob o signo do aparecimento de potências ásio-americanas (os Estados Unidos, a Rússia, o Japão), da crescente americanização dos costumes e das instituições após 1890, do progressivo declínio de poder internacional dos Estados europeus, da ampliação dramática das interseções entre os cenários históricos afro--asiáticos e o cenário euro-americano, do novo imperialismo, da segunda revolução industrial, da democracia de massas e dos desafios ao libe-ralismo (nenhum deles restrito à Europa) que Barraclough entende as potencialidades de uma história mundial. Isso posto, temos que a Era Contemporânea, com sua história mundial, traz em si uma forte possibilidade de interface sistêmica entre fenô-menos históricos com áreas de efeito imediatas apartadas espacialmente; 3  e nesse sentido, o crescimento de um tabuleiro histórico formado pelas zonas de interseção entre tabuleiros histó-ricos “locais” (que deixa cada vez menos espaço para o “local” em nome do “mundial”) faz com que esse mundo “em crescimento” esteja, na verdade, diminuindo. Esse encurtamento dos espaços não aparece como um desejo teórico de que as coisas tenham sido assim, e assim ainda sejam, para que esta ou aquela tomada de posi-ção política seja legitimada. Feitas as perguntas corretas, o registro histórico – elemento media-dor de nosso contato sensível com a experiên-cia humana – pode de fato nos responder que o mundo das últimas décadas do século XIX havia deixado de ser um campo aberto para a descoberta e para o incógnito. Era global, ma-peado; com poucas exceções (o interior dos con-tinentes africano, asiático, e partes da América  67 REVISTA DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ECONOMIA POLÍTICA43 / fevereiro 2016 – maio 2016 do Sul), o ato de explorar havia perdido seu significado primitivo, de descoberta, e passa-va a significar controle sobre regiões outrora inóspitas, um fincar de bandeiras, conquista. As ferrovias, a navegação a vapor (e mesmo a navegação à vela, modernizada após o impacto competitivo dos  paddler steamers  de meados do século), “haviam reduzido as viagens interconti-nentais ou transcontinentais a uma questão de semanas, em vez de meses” (Hobsbawm, 1988, p. 30), e o telégrafo, por sua vez, reduzia o tempo de comunicação entre continentes a poucas horas. Adensava-se a demografia mundial, com privilégio para as taxas de crescimento na Europa e nas Américas, ainda que a Ásia mantivesse sua primazia populacional por volta do início do século XX. É em termos de con-cretude como esses que devemos pensar sobre a diminuição do distanciamento espacial entre tabuleiros históricos.Esse “encurtar de espaços”, como influência formativa do mundo contemporâneo, é um fenômeno que está contido em outro de maiores dimensões, que consiste da integração com-plexa 4  das economias nacionais ao mercado mundial (que é interpretada de modo simplifi-cador pelos apologetas da globalização como a “diluição das fronteiras econômicas”). Apesar Tabela 1. População mundial – anos selecionados (em 1.000 hab.) 17001870Europa Oriental (exceto Rússia)Europa Ocidental18.80081.460263.255 Fonte: Dados compilados a partir de (Maddison, 2010) e (Maddison, 2006).* População final em 1913 (e não em 1914), como referenciado em (Maddison, 2006, p. 183). 191453.557187.499América do SulAmérica do Norte53.5441.200107.59823.42444.022Ásia OcidentalChina20.800441.95830.286358,000OceaniaÁfrica55061.0806.0762.06690.466Rússia*26.550156.19288.672América Central138,00028.61816.977–––––
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