Ovídio homenageia Ovídio: (mais) um epigrama sobre o poeta (Ars Am. 3.341-346)

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RESUMO Vários passos ovidianos podem ser lidos como epigramas integrados em obras mais extensas. Pretende-se analisar a interacção de Ovídio com a tradição helenística de compor epigramas sobre poetas, propondo que Arte de Amar 3.341-346 possa ser

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  eClassica  I 2015 56   Ana Lóio, “Ovídio  homenageia Ovídio: (mais) dois epigramas sobre poetas (Am. 3.15.11-14, Ars Am. 3.341- 346)?”, eClassica  1, 2015, 56-59. OVÍDIO HOMENAGEIA OVÍDIO: (MAIS) UM EPIGRAMA SOBRE O POETA (  ARS AM.  3.341-346)? Ana Maria L ÓIO  analoio@campus.ul.pt Centro de Estudos Clássicos Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa RESUMO  Vários passos ovidianos podem ser lidos como epigramas integrados em obras mais extensas. Pretende-se analisar a interacção de Ovídio com a tradição helenística de compor epigramas sobre poetas, propondo que  Arte de Amar   3.341-346 possa ser lido como uma instância de tal interacção. PALAVRAS - CHAVE  Ovídio, epigramas sobre poetas, livros que falam, discussão poetológica.  Na minha tese de doutoramento  –     Ego liber  :  livros que falam no epigrama latino , Univ. Lisboa, 2012  –  , estudei os epigramas latinos falados por livros 1 : o epigrama prefacial dos  Amores  de Ovídio e, em Marcial, a  Batracomaquia  (14.183) e o  prefácio do livro décimo (10.1). Ora, o discurso de primeira pessoa do livro é apenas um dos motivos que estruturam a tradição epigramática de homenagem a poetas 2 . Proponho ler em Ovídio outros tipos daquela tradição, ou seja, apontar outro “momento epigramático ” que apresenta, a meu ver, motivos e linguagem reminiscentes dos epigramas sobre poetas. Se é conhecido o caso do “epigrama” de cariz editorial que encerra Tristia  1.7, e que o poeta explicitamente identifica como o novo prefácio destinado às  Metamorfoses 3 , outro passo pode ser lido como um epigrama sobre certo  poeta  –   Ovídio. 1  O epigrama prefacial dos  Amores , Marcial 14.183 e 10.1 constituíram o tema da minha tese de doutoramento,  Ego liber: livros que falam no epigrama latino , Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2012. Para uma resenha dos epigramas que formam tal tradição ver L. Rossi, The Epigrams ascribed to Theocritus , Leuven, 81- 104; P. Bing, “The Bios -Tradition and the Poet‟s Lives in Hellenistic Poetry”, in R. M. Rosen –   J. Farrell (edd.),  Nomodeiktes. Greek studies in honor of Martin Ostwald  , Ann Arbor (Mich.), 1993, 619-31; P. Bing, The Well-Read Muse , Göttingen, 1988, 29-53, 58-64; P. Bing, “Theocritus' Epigrams on the Statues of Ancient Poets”,  Antike und Abendland   34, 1988, 117  –  23. 2   R. Hunter, “Callimachus and Heraclitus”,  Materiali e discussioni per l’analisi dei testi classici  28, 1992, 113- 23; G. D. Williams, “Conversing After Sunset: a Callimachean Echo in Ovid‟s Exile Poetry”, Classical Quarterly  41, 1991, 169-77. 3  Ver T. Ramsby, “Striving for Permanence: Ovid's Funerary Inscriptions”, Classical Journal   100, 2005, 365  –  391.  eClassica  I 2015 57   Ana Lóio, “Ovídio  homenageia Ovídio: (mais) dois epigramas sobre poetas (Am. 3.15.11-14, Ars Am. 3.341- 346)?”, eClassica  1, 2015, 56-59. Em Ovídio, a reflexão sobre a actividade literária passa muitas vezes pela comparação do poeta com grandes nomes das literaturas grega e latina, com os quais ombreia sempre, e não é raro que resulte em auto-homenagem 4 . Nestes contextos, o elegíaco exibe um gosto particular por fazer catálogos e listas de poetas 5 . É nestes catálogos que encontramos, sem surpresa, uma linguagem semelhante à dos epigramas gregos que temos vindo a estudar: em um breve “ espaço ”    –   um hemistíquio, um verso, um dístico  –  , Ovídio elogia os poetas referindo a glória que recai sobre a sua terra natal (  Am . 3.15.7), o contributo de dado poeta para o desenvolvimento de determinado género (  Am . 3.9.1-6, Tibulo e a Elegia; ver AP 7.37 e 39 sobre os contributos de Sófocles e Eurípides para a tragédia), a imortalidade que a obra outorga (  Am.  1.15; ver AP 7.713 sobre Erina, AP 7.17 sobre Safo); é possível, ainda, que a caracterização do poeta o situe em uma determinada estética ou lembre um atributo do seu estilo (  Am . 1.15.13-14, 19-20 sobre Calímaco e Énio; Tr  . 2.423-24 sobre Énio, Tr  . 4.10.43 sobre Horácio; ver AP 7.713 sobre Erina, AP 7.409 sobre Antímaco). No terceiro livro da  Arte de Amar  , Ovídio apresenta um catálogo dos poetas nos quais deve basear-se a cultura da  puella . Em primeiro lugar, aconselha a leitura dos gregos Calímaco, Filetas, Anacreonte, Safo e Menandro (329-32); depois, sugere os elegíacos: Propércio, Galo, Tibulo. Seguem-se duas épicas latinas, a de Varrão e a de Vergílio (335-338). Ovídio deixa  propositadamente para o fim deste breve catálogo a menção da  Eneida , que surge como o culminar da poesia latina (338). Da obra romana mais famosa passa Ovídio directamente à sua: alvitra que possa vir a fazer parte desta lista de poetas imortais, ganhando um nomen  que lhe permita ombrear com aqueles que acabou de referir (339-340). Mas o termo  forsitan , à cabeça do verso 339, transmite uma humildade que os versos seguintes desmentem. Ovídio passa a apresentar argumentos em como a imortalidade legitimamente lhe pertence. Procura, no entanto, distanciar-se de tal juízo, imaginando que os comentários integram o discurso de um terceiro. Este orador, anónimo, há-de desempenhar o papel que coube a Ovídio, recomendando leituras. Agora, o poeta elegíaco encontra-se entre os autores cuja leitura é aconselhada: a tque aliquis dicet „ nostri lege culta magistri carmina, quis partes instruit ille duas: deue tener libris titulus quos signat Amorum, elige, quod docili molliter ore legas: uel tibi composita cantetur Epistola uoce: ignotum hoc aliis ille nouauit opus.‟  (Ov.  Ars Am . 3.341-46 Gibson) 4    Amores  1.15: Ovídio está entre os poetas imortais;  Amores  3.9: Tibulo encontra-se na companhia dos  poetas elegíacos no  Elysium  e Ovídio insinua que também ele estará entre aqueles um dia;  Ars Amatoria  3.329-348: o poeta oferece uma lista de poetas gregos e latinos considerados fundamentais para a  puella  erudita, figurando ele entre aqueles;  Rem. am.  757-766 (Ovídio regressa à lista referida): o poeta enumera os livros a evitar, e os amorosos à cabeça da lista, figurando os seus próprios livros entre eles; Tristia  2.363-468: Ovídio menciona os poetas que trabalharam o tema que o levou ao exílio, interpretando todas as grandes obras da poesia grega e latina como poesia amorosa; Tristia  4.10.43-54: Ovídio recorda poetas de cuja amizade goza, e o catálogo é, na verdade, um cânone dos poetas elegíacos;  Pont.  4.16: Ovídio é, simultaneamente, um „clássico‟ da Literatura Latina, uma vez que ele está „morto‟, e um poeta contemporâneo, porque ainda está vivo. 5  Roy K. Gibson, Ovid. Ars amatoria book 3 , Cambridge, 2003, 230; J.C. McKeown, Ovid, Amores. A commentary on book I  , Liverpool, 1989, 394.  eClassica  I 2015 58   Ana Lóio, “Ovídio  homenageia Ovídio: (mais) dois epigramas sobre poetas (Am. 3.15.11-14, Ars Am. 3.341- 346)?”, eClassica  1, 2015, 56-59. e venha alguém a dizer: “Cultiva -te e lê os versos do nosso mestre, com os quais quis ducar os dois partidos, ou escolhe, de entre os três livros a que deu por título  Amores , aquilo que podes ler em paz, com voz suave, ou recita, com voz trabalhada, uma Epístola, género desconhecido de outros e que ele inventou. ” 6   Transformando estas palavras no discurso de um terceiro, introduzido pela expressão aliquis dicet   (341), Ovídio torna mais fácil o reconhecimento de que estes versos são isoláveis como um epigrama. O número de versos dedicados às obras de Ovídio, seis, contrasta com o espaço dedicado aos outros poetas, que merecem, no máximo, um dístico (é o caso de Vergílio, 337-338). Ovídio é o referente de ille  (342, 346), forma de deferência. Acrescente-se que as obras ovidianas não são meramente listadas. Se aceitarmos a lição de Gibson para o verso 343, tener     –   onde muitos desejam ler tribus 7  –  , cada obra é caracterizada mediante um adjectivo com conotações poetológicas. Assim, a  Arte de Amar   é qualificada como culta... carmina  (341-2), termo apropriado, como indica Gibson, para designar a poesia que se ocupa do cultus  (ver TLL  3.1692.35ss): a “eleganza curata nei minimi dettagli” 8 . O vocábulo cultus  é utilizado em contextos de crítica literária (por exemplo, em Marcial 5.30.4 “cultis... elegia... comis”) e, na opinião de Gibson, pode aludir a Tibulo, que Ovídio qualifica dessa maneira duas vezes nos  Amores 9 . Ovídio herda de Tibulo o papel de magister amoris , vinculando ao elegíaco a sua obra didáctica. Por sua vez, os  Amores  ostentam um tener... titulus (343); o adjectivo pertence ao mesmo campo semântico que mollis , designando a ligeireza e a musicalidade da poesia elegíaca 10 . Este passo é, ainda, um dos poucos testemunhos em como  Amores  poderá ter sido o título dado à colecção de elegias amorosas de Ovídio: com efeito, no v. 343, o poeta parece designar aquela o  bra quando refere “...libris titulus quos signat Amorum”.  O aspecto mais polémico deste trecho diz respeito ao último dístico: “Vel tibi com  posita cantetur Epistola uoce:| Ignotum hoc aliis ille nouauit opus” (339-340). Primeiro, cantetur... uoce  (346) aponta para que as  Heróides  se destinassem a ser, de algum modo, representadas. Depois, para nos fixarmos no aspecto pertinente  para este estudo, o modo como o poeta se refere às  Heróides , salientando a obra especificamente pela sua srcinalidade  –    “ignotum hoc aliis ille nouauit opus” (346) –  , suscitou várias reflexões. É certo que, antes de Ovídio, já Lucílio, Catulo, Horácio e Propércio haviam composto epístolas poéticas, só que essas experiências epistolares não resultaram em uma obra integralmente dedicada a missivas de cariz amoroso; as  Heróides  merecem o estatuto de trabalho pioneiro, à partida, por serem o primeiro livro a reunir tais caracerísticas. A questão é complexa e polémica 11 . 6  Tradução de C. A. André, Ovídio. Arte de Amar  , Lisboa, 2006, 89. 7  Síntese e bibliografia em Gibson,  Ars Amatoria 3 , 237. A lição tribus  apoia os defensores de que a edição de  Amores  em três livros é anterior ao terceiro livro da  Ars Amatoria . Gibson mostra que a lição tribus  dificilmente será a correcta. Munari ( Ovidio. Amores , Firenze, 1951, ix, n. 1) afirma que o título da obra está preservado em  Ars Am . 3.343, mas na Idade Média aquela circulou com a inscrição „sine titulo‟, „Ovidius sine titulo‟, „De sine titulo libris‟. Em alguns manuscritos, o título e a inscrição „sine titulo‟ surgem juntos, como no Neapolitabus : „Liber Ovidii sine titulo qui vocatur amorum‟.   8  I. Ciccarelli, Commento al II libro dei Tristia di Ovidio , Bari, 2003  , 255. 9  Ov.  Am . 1.15.27-8: donec erunt ignes arcusque Cupidinis arma,| discentur numeri, culte Tibulle, tui );  Am.  3.9.65-6: his comes umbra tua est; siqua est modo corporis umbra,| auxisti numeros, culte Tibulle,  pios . Gibson,  Ars Amatoria 3 , 237. 10  Ver também  Am.  2.1.4, 3.1.69, 3.8.2,  Ars Am . 2.273 e 3.333,  Rem. Am . 757,  Tr  . 4.10.1 (Ciccarelli, Tristia II  , 229). 11  Vários estudiosos procuraram argumentos que apoiassem a srcinalidade das  Heroides , desde a srcem  eClassica  I 2015 59   Ana Lóio, “Ovídio  homenageia Ovídio: (mais) dois epigramas sobre poetas (Am. 3.15.11-14, Ars Am. 3.341- 346)?”, eClassica  1, 2015, 56-59. Ora, enumerar as obras de um autor, reconhecer uma afiliação estética, reclamar a srcinalidade de certa obra e empregar vocabulário técnico característico das  polémicas literárias, e isto em três dísticos que definem uma “carreira” –   estas são as características que dão forma aos epigramas sobre poetas. Ovídio escreve o seu curriculum , e por meio daquele constrói a imagem que pretende que o público e a  posteridade dele, e da sua produção poética, façam. Celebra-se como poeta de amor: as três obras mencionadas possuem algo em comum, “ quod docili molliter ore legas ”  (344), ou seja, pertencem ao domínio do género definido pela mollitia  e pela docilitas , que definem a poesia elegíaca. BIBLIOGRAFIA C. A. André, Ovídio. Arte de Amar  , Lisboa, 2006 A. R. Baca, „Ovid‟s claim to srcinality and  Heroides   1‟, Transactions of the American  Philological Association  100, 1969, 1-10 P. Bing, “The Bios - Tradition and the Poet‟s Lives in Hellenistic Poetry”, in R. M. Rosen  –   J. Farrell (edd.),  Nomodeiktes. Greek studies in honor of Martin Ostwald  , Ann Arbor (Mich.), 1993, 619-31 P. Bing, „Theocritus‟ Epigrams on the statues of ancient poets‟,  Antike und Abendland   34, 1988, 117-123 P. Bing, The Well-Read Muse , Göttingen, 1988 I. Ciccarelli, Commento al II libro dei Tristia di Ovidio , Bari, 2003 Roy K. Gibson, Ovid. Ars amatoria book 3 , Cambridge, 2003, 230; J.C. McKeown, Ovid.    Amores I  , Liverpool, 1989 R. Hunter, “Callimachus and Heraclitus”,  Materiali e discussioni per l’analisi dei testi classici  28, 1992, 113-23 G. Hutchinson, „Ovid,  Amores   3: The Book‟, Talking Books , Oxford, 2008, 177-98 J.C. McKeown, Ovid, Amores. A commentary on book I  , Liverpool, 1989 F. Munari, Ovidio. Amores , Firenze, 1951 A. Nascimento (coord.),  Propércio. Elegias , Lisboa  –   Assis, 2002 T. Ramsby, „Striving for Permanence: Ovid's Funerary Inscriptions‟, Classical Journal   100, 2005, 365  –  391 L. Rossi, The Epigrams ascribed to Theocritus , Leuven, 81-104 G. D. Williams, “Conversing After Sunset: a Callimachean Echo in Ovid‟s Exile Poetry”, Classical Quarterly  41, 1991, 169-77 das personagens e dos temas no passado mitológico à influência das  suasoriae  e da epístola properciana de Aretusa a Licotas (4.3); alegou-se, ainda, o carácter dramático e o cariz didáctico das  Heroides ; aprofundou-se uma perspectiva segundo a qual as inovações serão estilísticas, residindo na sensibilidade  psicológica das heroínas ovidianas. Para uma síntese das interpretações do v. 346 ver A. R. Baca, „Ovid‟s claim to srcinality and  Heroides   1‟, Transactions of the American Philological Association  100, 1969, 2-5.
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