O OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO E A PRÁTICA POLÍTICA

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  O prodigioso desenvolvimento dos meios de comunicação, aolongo do século XX, modificou todo o ambiente político. O contato entrelíderes políticos e sua base, a relação dos cidadãos com o universo dasquestões públicas e mesmo o processo de governo sentiram, e muito, oimpacto da evolução tecnológica da mídia. Já no começo do século, fez-senotar a presença do rádio, secundado pelo cinema, que se mostrou umimportante instrumento de propaganda. Os novos meios exigiam novostipos de políticos, que soubessem como utilizá-los. Cada um à sua maneira,Franklin Roosevelt, nos Estados Unidos, e Hitler, na Alemanha, tornaram-se símbolos da política da era do rádio. (Assim como Hollywood e a UFAberlinense representaram duas formas diferentes de aproveitamento políti-co do cinema.) Mas o meio dominante, desde que surgiu, e que por enquan-to não parece ser desafiado pelas novas tecnologias, é a televisão. Ela re-volucionou nossa percepção do mundo, em especial do mundo social e,dentro dele, da atividade política.Ocupando uma posição cada vez mais destacada na vida de seusespectadores (sempre mais numerosos), como fonte de informação e deentretenimento, a televisão reorganizou os ritmos da vida cotidiana, osespaços domésticos e, também, as fronteiras entre diferentes esferas so-ciais. Como demonstrou Joshua Meyrowitz, a mídia eletrônica, sobretudoa TV, rompeu a segmentação de públicos própria da mídia impressa e con-tribuiu para redefinir as relações entre mulheres e homens, crianças e adul-tos, leigos e especialistas 1 . Aprofundou as transformações no discursopolítico, de certa maneira unindo o sentimento de intimidade, transmitidopelo rádio, com o apelo imagético próprio do cinema. OS MEIOS DE COMUNICAÇÃOE A PRÁTICA POLÍTICA  LUIS FELIPE MIGUEL 1Meyrowitz,  No Sense of Place . As referências bibliográficas completas estão ao final do texto.   LUA NOVA Nº 55-56— 2002 156 Evidentemente, os cientistas políticos não puderam ignorarmudanças tão significativas e manifestas. Mas, em grande medida herdeirosde modelos que nascem ainda no período pré-midiático, têm dificuldade emincorporar de forma expressiva os meios de comunicação às suas reflexões.Em seu livro pioneiro, publicado na década de 1920, Walter Lippmannlamentava o fato de que “a ciência política é ensinada nas faculdades comose os jornais não existissem” 2 . Oitenta anos depois, é possível dizer que aciência política já reconhece a existência do jornal, bem como do rádio, datelevisão e até da internet. Mas em geral não vê neles maior importância.Um exemplo emblemático vem de um dos livros mais festejadosda ciência política brasileira dos últimos anos, fruto de uma extensa pesquisae da análise minuciosa dos resultados de uma série de surveys nacionais,especialmente desenhados para o projeto 3 . Numa obra dedicada ao estudo da“cultura política”, isto é, das crenças e atitudes relativas à política e suasinstituições, a mídia brilha como a grande ausente. Referida de passagem,aqui e ali, nunca é incorporada como uma variável significativa para a com-preensão das idéias políticas compartilhadas por uma população.Longe de se tratar de um caso isolado, a postura é característica dagrande maioria dos estudos políticos, tanto nacionais quanto estrangeiros. Orecorte da “política”, que a ciência política faz, inclui governos, partidos e par-lamentos; dependendo das preocupações específicas e das inclinações de cadaum, também participam movimentos sociais, militares, elites econômicas oua igreja. Os meios de comunicação de massa ficam (quase) invariavelmentede fora. Ou então são vistos como meros transmissores dos discursos dosagentes e das informações sobre a realidade, neutros e portanto negligen-ciáveis 4 . (Cumpre observar que esta também é a visão da política que aprópria mídia costuma transmitir, na qual raras vezes aparece como agente.)Se os cientistas políticos tendem a restringir a importância damídia, os estudiosos da comunicação costumam, como observou Rubim,exagerá-la, a ponto de julgar que a política, totalmente dominada pela ló-gica dos meios, tornou-se um mero espetáculo entre outros 5 . Neal Gabler,ao apresentar a tese da superação da realidade pelo entretenimento, apenasdeu uma roupagem mais provocativa a algo que, em certos círculos, jáganha foros de lugar comum 6 . Uma das pontas-de-lança dessa nova per- 2Lippmann, Public opinion , p. 203.3Moisés, Os brasileiros e a democracia .4Esta é a percepção que transparece na obra recente de Castells, O poder da identidade , pp. 161-2.5Ver Rubim, Comunicação e política , p. 12.6Gabler, Vida, o filme .  157 cepção, a revista George , fundada pelo falecido “John John” Kennedy,baseia sua linha editorial na idéia de que parlamentares e governantesdevem ser encarados de maneira similar a atores, cantores, apresentadoresde programas de auditório e outras estrelas do ramo do divertimento. Ouentão, como escreveu um diretor de jornal brasileiro, a política se tornou“um ramo da publicidade” 7 . É uma afirmação que, para além de sua razoa-bilidade imediata — o avanço das técnicas publicitárias é uma das carac-terísticas mais visíveis das disputas eleitorais das últimas décadas — levaa ignorar a permanência, transformada , de uma lógica especificamentepolítica dentro do quadro cada vez mais midiático que baliza sua ação.Este artigo esboça um modelo para a compreensão da relaçãoentre meios de comunicação e política que seja capaz de apreender a inter-conexão entre as duas esferas e a centralidade crescente da mídia no jogopolítico atual, mas também o fato de que a política não se tornou um ramodo entretenimento ou da publicidade, como muitos querem — é regida porobjetivos e lógica diferentes. Deve ser entendido como a enunciação de umconjunto de hipóteses de trabalho, cujo objetivo é guiar novas pesquisas naárea. A principal ferramenta conceitual, retirada da sociologia de PierreBourdieu, é a idéia de campo . Para definir de maneira sucinta e provisória,um campo é um sistema de relações sociais que estabelece como legítimoscertos objetivos, que assim se impõem “naturalmente” aos agentes que deleparticipam. Esses agentes, por sua vez, interiorizam o próprio campo,incorporando suas regras, também de maneira “natural”, em suas práticas(o que Bourdieu chama de habitus ) 8 .O próprio Bourdieu tratou brevemente do impacto da mídiaeletrônica sobre o campo político (e também sobre o campo acadêmico).Mas fê-lo numa obra polêmica, destinada a alertar para o peso excessivodos meios comunicação de massa na formação das reputações políticas euniversitárias; isto é, uma obra de combate, que almejava contribuir para arestauração da autonomia desses campos 9 . Em muitos casos, Bourdieu nãofaz mais do que traduzir, para suas categorias, constatações há muito pre- COMUNICAÇÃO E PRÁTICA POLÍTICA7Frias Filho, “Vendem-se candidatos”. Outra formulação, de um ex-jornalista e professor de jornalismoestadunidense: a televisão “direcionou a política para sua própria essência: entretenimento visual”.Janeway,  Republic of denial ,p. 60. Mais matizada, uma posição similar aparece em Gomes, “Propagandapolítica, ética e democracia”.8Trata-se de um conceito complexo, que não admite ser encapsulado em umas poucas sentenças; ao longodeste artigo, enfatizarei sobretudo os aspectos mais relevantes para a discussão em tela. Para introduçõesúteis ao conceito de campo, ver Pinto, Pierre Bourdieu et la théorie du monde social , pp. 79-108; Jenkins, Pierre Bourdieu , pp. 66-102; e, do próprio sociólogo, Bourdieu (com Wacquant),  Réponses , pp. 71-90.9Bourdieu, Sur la télévision .   LUA NOVA Nº 55-56— 2002 158 sentes na literatura sobre comunicação e política. Fora alguns insights estimulantes, pouco há, no livro, que avance para uma compreensão maissistemática da relação entre mídia e política como campos relativamenteindependentes, na medida em que retêm sua própria lógica, mas sobrepos-tos, já que interferem, em larga escala, um no outro. A CENTRALIDADE DA MÍDIA É necessário, em primeiro lugar, o reconhecimento de que amídia é um fator central da vida política contemporânea e que não é pos-sível mudar este fato . Ou seja, é ocioso alimentar a nostalgia de “temposáureos” da política, quando imperava o verdadeiro debate de idéias, sem apreocupação com a imagem ou a contaminação pelas técnicas da publici-dade comercial 10 . Em primeiro lugar, porque um retorno ao passado éimplausível. Mas também porque tal época de ouro nunca existiu. Antes doadvento da televisão, outros fatores “viciavam” o discurso político. Se hojeé importante que o candidato tenha um rosto atraente, antes pesavam maisa técnica retórica, o timbre de voz ou mesmo o talhe do corpo, já que indi-víduos altos e corpulentos se destacavam mais em meio à multidão ou nopalanque. Em suma, mesmo que se possa lamentar a atual banalização dodiscurso político, nunca houve nada parecido a um debate “puro” de idéias,desligadas daqueles que as enunciam.Ao mesmo tempo, os meios de comunicação de massa ampliamo acesso aos agentes políticos e a seus discursos, que ficam expostos, deforma mais permanente, aos olhos do grande público. Parte da nostalgia dapolítica pré-midiática se deve à ausência atual de “grandes líderes”. Comoobserva Meyrowitz, isto se deve não à falta de candidatos a esta posição,mas “à superabundância de informações sobre eles” 11 , isto é, à exposiçãode suas falhas, vacilações e equívocos. Para quem sonha com o glamour  deum mundo salpicado de grandes homens, isto é mau. Do ponto de vista daprática democrática, porém, a desmitificação dos líderes políticos pode serencarada como um progresso. 10Como no contraste, comum em determinada literatura, entre os debates entre Lincoln e Douglas, emmeados do século 19, com suas discussões profundas de temas controversos, e os debates televisivos dehoje, quando a cor da gravata importa mais do que aquilo que está sendo dito. Ver, entre outros, Lasch,  Arebelião das elites e a traição da democracia , pp. 191-3.11Meyrowitz,  No sense of place , p. 270.  159 Da mesma forma, muitos criticam o efeito deletério da mídiasobre a coesão social e a crença nas instituições políticas 12 . A televisão, emprimeiro lugar, insularia as pessoas em suas vidas privadas, minando a con-vivência em comunidade, base da confiança interpessoal e da participaçãopolítica. Além disso, a mídia colocar-se-ia à parte dos esforços nacionais,o que se traduziria em seu desrespeito até mesmo pelos segredos de guer-ra; a ênfase do noticiário nos escândalos solaparia a credibilidade nospolíticos; em suma, seria abalada a percepção de que o Estado é o promo-tor do bem comum. Uma narrativa mais sofisticada atribui aos meios decomunicação o papel de deflagrador da “espiral do cinismo”: a imprensa lêcinicamente a disputa política e os políticos se adaptam ao comportamen-to esperado, numa cadeia de alimentação mútua 13 . Sem dúvida, é legítimodeplorar a cobertura predominante sobre a arena política, que se reduz àsestratégias da disputa pelo poder e nega espaço ao debate sobre os projetosde sociedade. Mas também cabe indagar se, do ponto de vista de umacidadania esclarecida, a desconfiança em relação aos apelos pelo “bempúblico” e uma visão mais crítica sobre os interesses que movem os líderespolíticos não são avanços consideráveis.Parte desta suspeição contra a mídia está ligada a uma perspecti-va elitista da prática política, que é perceptível, por exemplo, na reflexão docientista político italiano Giovanni Sartori. Ele teve, em primeiro lugar, omérito de considerar a questão dos meios eletrônicos de comunicação e,assim, chamar a atenção para eles com o peso de seu renome. Quando pu-blicou  A teoria da democracia revisitada , em 1987, Sartori ainda comunga-va do credo liberal de que os mecanismos de mercado bastariam para garan-tir a autonomia da opinião pública 14 . Ou seja: embora reconhecesse aimportância dos provedores de informação no processo político democráti-co, tratava-se (ao menos para os regimes ocidentais) de um não-problema ,dado que as instituições vigentes o resolveriam de maneira satisfatória.Mas, pouco depois, no influente artigo “Videopolitica”, Sartorivai apontar a influência excessiva da televisão como o principal obstáculodas democracias ocidentais 15 . Seus argumentos são retomados, com maisvagar, no livro  Homo videns . Sartori diagnostica dois problemas interliga- COMUNICAÇÃO E PRÁTICA POLÍTICA12É o caso, por exemplo, de Fallows,  Detonando a notícia ; Sartori,  Homo videns ; Janeway,  Republic of denial ; e Putnam, “Tuning in, tuning out”, pp. 667-80.13Cappella e Jamieson, Spiral of cynicism , pp. 9-10.14Sartori,  A teoria da democracia revisitada , vol. 1, pp. 137-45.15Sartori, “Videpolitica”.
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