Mística e Paidéia: O Pseudo-Dionísio Areopagita Mistic and Paideia: Dionysius the Pseudo Areopagite

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    Mística e Paidéia: O Pseudo-Dionísio Areopagita Mistic and Paideia: Dionysius the Pseudo Areopagite Bernardo Guadalupe S. L. Brandão 1   Resumo : O autor que se apresenta como Dionísio Areopagita, o ateniense convertido por São Paulo no Areópago (   Atos   XVII, 16-34) foi provavelmente um monge sírio que escreveu no fim do século V. Este artigo, ao discutir as tentativas contemporâneos de descobrir sua identidade e a influência que exerceu sobre o pensamento posterior, interpreta sua obra como uma tentativa de assimilação da filosofia e paidéia grega pelo cristianismo, representando um momento importante do processo simbolizado pela viagem de São Paulo à  Atenas.  Abstract:  The author who presents himself as Dionysius the Areopagite, the converted by Saint Paul on the Areopagus was probably a syrian monk who  wrote in the late V century. This article, dicussing the contemporany attempts to find his identity and the influence on the posterior thought, interprets his  writings as an attempt to assimilate the greek philosophy and paideia by christianity, representing an important moment in the process symbolized by the Saint Paul's journey to Athens. Palavras-chave : Pseudo Dionísio Areopagita, obras, paidéia, cristianismo Keywords : Pseudo Dionysius the Areopagite, works, paideia, Christianism *** 1. A recepção inicial  As quatro primeiras seções são, em sua maior parte, baseadas nos sumários que Rocques, Martin e Scazzoso fazem da recepção do corpus dionisiano da  Antiguidade aos tempos atuais. O autor dos quatro tratados (  Hierarquia Celeste, Hierarquia Eclesiástica, Sobre os  Nomes Divinos, Teologia Mística) e dez cartas que formam um dos corpus mais influentes da teologia cristã apresenta-se como Dionísio Areopagita – o 1  FALE/UFMG.  COSTA, Ricardo da   (coord.).    Mirabilia 4    Jun-Dez 2005/ISSN 1676-5818 83 ateniense convertido no Areópago por São Paulo (   Atos XVII, 16-34). No decorrer de sua obra, escreve a São João em Patmos, diz ter assistido ao eclipse do dia da morte de Jesus (  Carta   VII) e ter estado presente com São Pedro e São Tiago à morte de Maria (  Sobre os Nomes Divinos, cap. III). Manda cartas a Policarpo, discípulo de São João (  Carta  VII), a Tito (  Carta IX) e dedica seus tratados a Timóteo, discípulo de São Paulo.  A primeira menção que temos de suas obras data de 533, por ocasião do Concílio de Constantinopla. Na ocasião, seguidores de Severo, patriarca de  Antioquia (+538) que contestava a definição calcedônica da unidade de Cristo, buscaram na autoridade do corpus dionisianum   o apoio para suas teses. Já nessa ocasião, essa autoridade foi contestada pelo bispo de Éfeso, Hipácio, que, em nome dos calcedônios, dizia que, se os escritos fossem autênticos, teriam sido citados pelos padres anteriores. Na mesma época do concílio, ou talvez um pouco antes, o corpus dionisianum   foi traduzido para o sírio por um certo Sergius de Reshaina e, dez ou vinte anos depois, o bispo palestino João de Citópolis escreveu o primeiro comentário. No século seguinte, terá grande consideração na obra de São Máximo, o Confessor, um dos maiores teólogos bizantinos, e, a partir daí, será obterá uma grande autoridade, exercendo influência em obras como as de São  João Damasceno. Se o corpus dionisianum teve grande importância na Igreja do Oriente, esta não se compara, no entanto, à que teve no Ocidente. A influência se inicia com o papa São Gregório Magno (fins do século VI) - o pai da espiritualidade do Ocidente medieval - que provavelmente teve contato com a obra nos seis anos que viveu em Constantinopla. Na homilia 34 de seus comentários aos evangelhos, diz de pseudo-Dionísio: “ antiquus uidelicet et uenerabilis Pater”  . No sínodo Laterano (649), por vontade do papa Martino, são lidos e comentados trechos do pseudo-Areopagita. Em 680, o papa Ágaton o cita em uma carta ao concílio de Constantinopla e o papa Adriano (segunda metade do século  VIII) o chama de primeiro Padre da Igreja.  A Idade Média fará a lenda de Dionísio Areopagita crescer. Em 827, o imperador bizantino Miguel envia um exemplar do corpus a Ludovico Pio e este pede ao abade de Saint Denys  , Hilduíno, discípulo do conhecido Alcuíno, que faça a tradução da obra para o latim e reúna todas as informações referentes ao autor. A Passio Sanctissimi Dionysii   de Hilduíno não apenas apresenta o autor do corpus como Dionísio Areopagita, mas também como São Dionísio (Saint Denys, em francês), bispo mártir de Paris (séc. III), que havia dado nome à sua abadia e fora sepultado ali. Essa confusão aumentou consideravelmente o prestígio do Areopagita no Ocidente, especialmente em  COSTA, Ricardo da   (coord.).    Mirabilia 4    Jun-Dez 2005/ISSN 1676-5818 84 Paris - centro cultural da Idade Média - onde passou a ser considerado uma autoridade quase canônica.  A tradução de Hilduíno, de 835, apresentava muitos defeitos e, assim, Carlos II, o Calvo, pediu a João Escoto Erígena que fizesse outra. Esta ficou pronta em 862 e se tornou referência na Europa Medieval. Apesar da condenação da filosofia de Erígena - fortemente influenciada pelo pseudo-Dionísio - e da concorrência de novas traduções, como a de João Sarrazin (1165), mais ortodoxa, clara e igualmente lida, a tradução feita pelo filósofo irlandês não foi abandonada. Hugo de São Vítor, Abelardo e Pedro Lombardo leram através dela o pseudo-Areopagita. Mas o texto passou a vir acompanhado de notas de  João de Citópolis, São Máximo e glosas de Atanásio, diretor da Biblioteca Pontifícia no século IX. No século XII, o pseudo-Dionísio é lido e comentado na escola vitorina. A idéia da participação divina no mundo e a teologia simbólica apresentadas na Hierarquia Celeste fazem com que Hugo de São Vítor faça um comentário à obra, aplicando-a ao crescimento da alma na vida interior. Também na escola de Chartres ela exerce sua influência, em Tomás Gallus e Gilberto de Poitiers, por exemplo. Em meados do século XIII, entre os 70 e os 75 anos de idade, Roberto Grosseteste publica sua tradução e comentários do corpus  , de grande qualidade. Roger Bacon, Thomas de York e Jonh Wycliff o lêem. Foi provavelmente também através do trabalho de Grosseteste que o monge cartuxo autor da  Nuvem do Não Saber   travou contato com o pensamento dionisiano. A  Nuvem do Não Saber   é o melhor exemplo de aplicação prática da teologia mística do pseudo-Dionísio em um método preciso de oração. É talvez na Universidade de Paris do século XIII que as obras do pseudo- Areopagita alcançaram maior sucesso - eram vendidas ali, acompanhadas de comentários. Foram vários os comentadores do corpus que passaram por Paris, entre eles Pedro Hispano, que talvez possa ser identificado com o português Pedro Julião, o papa João XXI (MARTINS, 1952).  Tão logo se tornou professor da Universidade de Paris, Santo Alberto Magno chegar como professor à Universidade, iniciou um comentário que se estendeu a todas as obras atribuídas a Dionísio. Dizem alguns que tinha o corpus dionisianum como livro de cabeceira. São Tomás de Aquino também fez um comentário aos  Nomes Divinos  . É através do pseudo-Dionísio - que ele menciona 562 vezes apenas na Suma Teológica  , mais de 1700 vezes no conjunto total de seus escritos, excetuando o comentário ao Sobre os Nomes Divinos   – bem como de Santo Agostinho, que o platonismo está presente na filosofia  COSTA, Ricardo da   (coord.).    Mirabilia 4    Jun-Dez 2005/ISSN 1676-5818 85 tomista, ao lado da óbvia influência de Aristóteles. É também por meio do pseudo-Areopagita que, no centro da maior construção da teologia católica, encontramos uma aguda consciência dos limites do nosso conhecimento sobre Deus: “como de Deus não podemos saber o que é, mas somente o que não é, tão pouco podemos tratar de como é, mas de como não é”, diz São  Tomás no início do seu tratado sobre Deus da Suma Teológica. São Boaventura, que, ao lado de São Tomás e Santo Alberto, é um dos grandes mestres da Universidade de Paris do século XIII, cita o pseudo- Areopagita no seu Itinerário da Mente a Deus. Sua admiração é explicitada na Redução das Artes à Sacra Teologia  , onde considera-o mestre da mística, ao lado de Agostinho, entre os doutores e Gregório, entre os pregadores. No norte, Mestre Eckhart e Tauler no século XIV, devem muito ao pseudo- Areopagita. Também Ruysbroeck, que foi chamado por Dionísio o Cartuxo de outro Dionísio . Sua obra Bodas da Alma é dividida em três livros, segundo a tríplice divisão patrística que se consagrou com o pseudo-Dionísio: a via purgativa, iluminativa e unitiva. Nicolau de Cusa, considerado por muitos como o último filósofo medieval e o primeiro moderno, fala do “  grande Dionísio, aquele homem divino, nosso Dionísio, o  grande Dionísio ”, que considera um grande místico. A docta ignorancia de Nicolau de Cusa tem suas bases no apofatismo da Teologia Mística  .  Já em um ambiente totalmente renascentista, Pico della Mirandola o considera o mestre da verdadeira cabala cristã, unindo Platão e São Paulo, e Marsílio Ficino o chama de maior dos teólogos, tendo traduzido e comentado Sobre os  Nomes Divinos e a Teologia Mística  entre 1490-1492. Na dedicatória desse trabalho ao cardeal João de Médici e ao Papa Leão X, afirma que Dionísio é o cume da teologia cristã e da filosofia platônica.  Também a mística espanhola do século XVI foi influenciada pelo pseudo-Dionísio. No Tercer Abecedario Espiritual   de Francisco de Osuna, livro que marcou profundamente a mística de Santa Teresa de Ávila, a idéia dominante do recolhimento  é uma aplicação de alguns princípios da Teologia Mística  . Segundo Osuna, “ si tu no comprendes a San Dionisio, no te imagines que es porque sea incomprensible  ”. Ainda Bernardino de Laredo, Francisco Ortiz, o Mestre Ávila, Luís de Granada, Bartolomeu dos Mártires aludem ao corpus dionisianum. O surto místico ocorrido na Espanha no século XVI alertou as autoridades eclesiásticas, que passaram a tratar com ressalvas os tratados sobre o tema. A melhor forma de provar a ortodoxia de textos místicos era mostrar sua conformidade com a doutrina de “São Dionísio”. Foi o que fez São João da  COSTA, Ricardo da   (coord.).    Mirabilia 4    Jun-Dez 2005/ISSN 1676-5818 86 Cruz, que em vários trechos de sua obra afirma que a contemplação infusa de que fala não é outra coisa que o raio de treva   do Areopagita. A teologia mística do pseudo-Dionísio é uma das bases do pensamento do grande místico espanhol. Temas como o não saber, a ascensão mística e o conhecimento superior ao conhecimento, por ele desenvolvidos, são tratados pelo pseudo-Dionísio . 2. Dúvidas Na Inglaterra, São Tomás Morus e São João Fisher se serviram da doutrina do pseudo-Dionísio para combater Lutero, da mesma forma que João Eck, na  Alemanha. Ao contrário da entusiástica recepção do corpus na tradição da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa, o pseudo-Dionísio foi encarado, desde o início do movimento protestante, com hostilidade. Lutero, quando jovem, era um grande admirador do pseudo-Dionísio e lia freqüentemente suas obras, juntamente com as de Tauler, Gerson, São Boaventura e São Bernardo. Contrastava a sua teologia negativa com a  verborragia dos escolásticos. Mas passou a incomodar-se cada vez mais com o platonismo ali presente, até que, na “Disputa de Leipzig” (1519), quando Eck utilizou o Areopagita para a defesa do primado do papa, passou a considerá-lo prejudicial: “  plus platonizans quam christianizans”. Muitos luteranos continuaram a ler a obra do pseudo-Dionísio, mas os grandes mestres da Reforma não o consideravam uma autoridade. Melanchton  vai contra a doutrina dos sacramentos da Hierarquia Eclesiástica   e Calvino condena a curiosidade presente na Hierarquia Celeste  , que quer saber mais do que Deus revelou. Zwinglio, que possuía as obras do pseudo-Areopagita e as publicações recentes a favor de sua autenticidade, não o considerava mais, como a tradição anterior, o convertido por São Paulo: “  pelas Anotações de  Erasmo já estás a par se ele é ou não o convertido por Paulo em Atenas  ”, diz aos teólogos dos bispos de Constanza em 1524.  A crítica de Erasmo, a que alude Zwinglio, é a retomada das considerações de Lorenzo Valla. Nas suas anotações ao  Novo Testamento , afirma que o Dionísio convertido por São Paulo não poderia ter escrito as obras a ele atribuídas, já que estas possuem um notável conteúdo filosófico e este era um juiz, não um filósofo. Também nota que, antes de Gregório, nenhum dos padres latinos o cita e que não poderia ter visto o eclipse solar no dia da morte de Jesus, porque este ocorreu na Palestina, não na Grécia. Os escritos de Valla não foram publicados durante sua vida. Apesar disso, suas dúvidas foram expressas a teólogos dominicanos em Roma (1457) e chegaram aos ouvidos de Ficino, que as desconsiderou, devido a sua grande admiração pela obra de
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