Memórias de Rio de Janeiro inundado em relatos de cronistas e literatos A

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    Memórias de Rio de Janeiro inundado em relatos de cronistas e literatos ANDRÉA CASA NOVA MAIA *   A história do Rio de Janeiro se confunde com a história das suas enchentes. As inundações ocorridas devido aos fortes temporais de verão, desde muito provocam tragédias na urbe, com desabamento de casas, alagamento de ruas, destruição do comércio, problemas de transporte, doenças, falta de comida e outras mazelas que, muitas vezes, incluíam a morte de alguns cidadãos. Estas verdadeiras catástrofes urbanas eram também, desde princípios do povoamento urbano, registradas em escritos de viajantes, desenhos e pinturas, bem como por obras literárias onde o olhar sensível dos artistas procurava representar, mas também expressar um sentimento, uma crítica e mesmo uma razão para o acontecimento quase anual e, no mais das vezes, catastrófico. Mais tarde os registros nos chegam já através da imprensa, ainda que naqueles tempos remotos não fosse realizado o registro preciso dos índices pluviométricos e não se tenha uma medição precisa de quanto chovia em quanto tempo. Registro que só foi possível séculos mais tarde. Para a cidade do Rio de Janeiro só disporíamos de marcações deste tipo a partir de 1851. Na época da fundação da cidade de São Sebastião, em 1575, o padre José de Anchieta ao escrever uma carta para outro religioso jesuíta, descreve a fúria e a grande intensidade com que a água das chuvas destruía a cidade: “...choveu tanto que se encheu e rebentaram as fontes...”(ANCHIETA apud CORRACY, 1965). De acordo com Helder Costa (COSTA, 2001, p. 79), a primeira inundação gerada por uma enchente histórica que se tem notícia ocorreu no século XVI. Talvez seja a mesma relatada pelo Padre Anchieta, mas não encontramos outro registro escrito que pudéssemos estabelecer com precisão tratar-se da mesma enchente. Todavia, posteriormente, já no século XVII, ela chega a ser descrita por alguns cronistas que falam sobre uma ressaca em data imprecisa, mas certamente numa época de maré alta e contam sobre uma chuva muito intensa de tal forma *  Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Doutora em História Social da Cultura pela UFF, Pesquisadora Sênior da Fundação Casa de Rui Barbosa, FAPERJ, Cnpq.   󰀲 que, vencido pelo mar, o canteiro da Rua Direita (atual Rua Primeiro de Março) e com alagamento das poças extensas, mas não profundas, de águas estagnadas e sujas da cidade, veio a atingir e transbordar as lagoas de Santo Antônio (Largo da Carioca), do Boqueirão (Passeio Público) e do Outeiro (Rua do Lavradio), interligando-as e transformando toda a área baixa da cidade numa grande laguna de águas escuras porque sujas e coloridas de lama. A massa de água alargou-se até atingir a chamada Prainha (Praça Mauá) e à Lagoa da Sentinela (Frei Caneca), de maneira que os morros então já habitados, do Castelo (Rua Graça Aranha e México), de São Bento (São Bento) e de Pedro Dias (Rua do Senado) se transformaram em verdadeiras ilhotas. Outros registros de memória sobre as grandes inundações datam de 1711. No século XVIII destacam-se as enchentes de 21 para 22 de setembro de 1711, pois tal inundação parece ter coincidido com a chegada dos franceses ao Rio de Janeiro. A invasão foi liderada por Duguay-Trouin e os franceses, na noite de 21, após terem rendido a Ilha das Cobras, deram início ao famoso bombardeio da cidade sob intenso temporal que alagou o Rio de Janeiro. De certa forma, a chuva e o alagamento da cidade facilitaram a vitória dos franceses e o sucesso da invasão, pelo que sugerem alguns historiadores, como CAVALCANTI (2004). Todavia, novas pesquisas afirmam que mesmo com a ocorrência de algum tipo de fenômeno meteorológico, capaz de justificar uma baixa visibilidade durante a invasão, como um nevoeiro ou chuva intensa, a invasão seria inevitável, considerando a deficiência do sistema de defesa e o grande poder ofensivo da esquadra francesa. Mesmo assim, as crônicas mais antigas sugerem que os tiros de canhão confundiam-se com o som dos trovões e relâmpagos da tempestade que alagou a cidade. José Vieira Fazenda, por exemplo, faz referência às chuvas de 1711, que “por muito tempo perdurou na tradição carioca”, descrevendo o que se tem notícia sobre a sinistra noite de 21 para 22 de setembro de 1711: “Forçada a barra do Rio de Janeiro e apoderando-se da ilha das Cobras, iniciou o célebre marítimo o bombardeio da cidade. “Noite espantosa, noite terrível (diz testemunha ocular)! O seu silencio repentinamente se perturba pelas descargas de toda a artilharia. Ao mesmo tempo se cobre o céu com horrorosa tempestade. O fogo dos relâmpagos se confunde com o fuzilar dos canhões e o ribombar destes junto aos formidáveis estrondos dos trovoes repercutindo pelos ecos das montanhas davam os míseros habitantes a sinistra ideia do fim do mundo”. “Estes (acrescenta insuspeito contemporâneo), se foram metendo por esses caminhos e matas, onde si se   󰀳 houveram de individuar os desarranjos, fomes, mortes de crianças, desamparo de mulheres e toda a qualidade de misérias, fora um nunca acabar. Mulher houve que se achou morta abraçada com uma criança de peito, e outra assentada junto dela, a qual perguntando-se, o que fazia ali? Respondeu: estava esperando que sua mãe e irmã acordassem. Ajuntando-se a mais terrível noite de chuva e escuridão, que pôs os caminhos de sorte que em algumas pontes se passava com água pelos peitos, e pareciam os passageiros o espetáculo de um naufrágio”. (FAZENDA, 1920, p.27) Também existem notícias de que uma grande chuva, precedida por ventos fortíssimos, atingiu o Rio de Janeiro no ano de 1756, a partir das 13 horas do dia quatro de abril. Totalizando três dias de fortes chuvas, os registros indicam que as tempestades provocaram inundações em toda cidade e desabamentos de casas, deixando muitas pessoas desabrigadas e alguns mortos. Um registro de Balthazar da Silva Lisboa narra que o terror se apoderou dos habitantes, fazendo com que os citadinos buscassem abrigo nas igrejas. De acordo com o cronista, as águas subiram de tal maneira que inundaram a Rua do Ouvidor (Miguel Couto) e entraram pelas portas das casas. Formou-se um rio que ia da região entre o Valongo (Praça Mauá) até a Igreja do Rosário (Rosário, esquina da Avenida Rio Branco), pois toda a área ficou totalmente cheia de água: "As trovoadas ocasionavam na Cidade grandes inundações. Em 4 de abril de 1756, depois de uma hora da tarde, choveu tão grossa e copiosa chuva, precedida de veementes concussões do ar, e espantosos furacões, por três dias sem interrupção, que o temor e o susto se apoderou de tal sorte do ânimo dos habitantes, que desde a primeira noite muita gente desamparou as casas, as quais caíram, fugindo sem tino para as Igrejas: desde então as águas cresceram por tal maneira que inundaram a rua dos Ourives, e entraram pelas casas dentro, por não caberem pela vala. No dia 5 do dito mês, saindo o Santíssimo da Sé, o Sacerdote que levava o Senhor, foi descalço, e bem assim os irmãos da irmandade do Santíssimo, todo o Campo parecia num Lagamar; vadeavam-se as ruas de canoas, e no dia 6 uma navegou desde o Valongo até a Sé (que estava na Igreja do Rosário dos pretos) com 7 pessoas." (LISBOA, 1840). É preciso lembrar, antes de mais nada, que o lugar escolhido para a construção da cidade teve que ser “dominado” pelo homem através de drenagens e aterros, durante mais de 300 anos, até o século XIX. Conforme assinala BRANDÃO (1997):   󰀴 “A posição estratégica do Rio de Janeiro, na entrada da Baía de Guanabara, foi fundamental na decisão portuguesa de fundar a cidade e de aqui manter o seu posto avançado de controle colonial. Mas o sítio sempre foi problemático pela quebra abrupta de gradiente entre a encosta e a baixada situada ao nível do mar, e pela grande quantidade de brejos, pântanos e lagoas.” A população do Rio de Janeiro irá ocupar partes do território com aterros provisórios e feitos sem muita tecnologia, a princípio e por isso, mal nivelados. A cidade é construída sobre antigos pântanos, córregos, lagoas, manguezais. E não deveríamos nos espantar ao constatar que é justamente nessas áreas que são maiores os danos causados pelas inundações. É sabido que a cidade começa a se expandir pela várzea, numa área circundada por quatro morros: o morro do Castelo e os morros de São Bento, de Santo Antônio e da Conceição. Acerca dos pântanos e mangues sobre os quais foi sendo levantada a cidade, aterrados primeiro, para a passagem dos caminhos e, depois, para a implantação de edificações, aponta BACKHEUSER, que: “... dessecando-os por drenagem; coloca-se, simplesmente, como ainda hoje se faz, o aterro por cima.” De acordo com o autor, no século XVII já se reconhecia a necessidade de se disciplinar a distribuição das edificações até então feitas a esmo e tornou-se uma primeira medida contra o alinhamento irregular que até então era feito, ordenando que as testadas das casas fossem pavimentadas numa largura de cinco palmos, aproximadamente 1,10m pelos próprios moradores, para diminuir os efeitos do embate sobre o leito das ruas, das águas da chuva escorrendo dos beirais dos telhados. Da mesma época é a abertura de valas para águas usadas e dejetos diversos. As valas, deste modo, foram a primeira rede de esgotos sanitários a céu aberto que o Rio de Janeiro conheceu. Esse sistema de drenagem era problemático, pois as valas, quase ao nível do mar, tinham pouca caída, pouco declive, o que comprometia sua função de drenagem. Além disso, quando da ocupação do território contra o mar há que se assinalar os múltiplos acréscimos de terrenos ocorridos no entorno da Baía de Guanabara em toda a orla da cidade, e que iriam acrescentar mais uma dificuldade ao escoamento das águas pluviais. Sem falar nas lagoas da cidade que foram sendo aterradas sem qualquer planejamento. Neste século há registros de   󰀵 fortes tempestades que caíram sobre o Rio de Janeiro nos anos 1756 a 1779, com enchentes e deslizamentos. No século XIX aconteceram várias enchentes no Rio de Janeiro. A principal delas foi a de 10 a 17 de fevereiro de 1811, conhecida como "Águas do Monte", pela destruição no Morro do Castelo, quando desabaram várias casas, muralhas e barracos, deixando sobre as ruínas inúmeras vítimas. D. João VI, tendo chegado de Portugal poucos anos antes, exigiu um inquérito sobre a enchente e, mais que a vontade de Deus, as causas encontradas eram “a falta de conservação das valas e drenos pelos entulhos e lixos e demais imundícies lançados nelas” (Rora & Lacerda, 1997, p. 43). As chuvas torrenciais parecem ter mesmo feito desabar parte da muralha da Fortaleza de São Sebastião sobre os quintais do beco do Cotovelo, matando e ferindo. As famosas “Águas do Monte” até quadrinha cantada inspiraram! De acordo com Carlos Kessel (KESSEL, 2008, pp.35-36), o estribilho da cantiga - que começa pelo "Vem cá, Bitu, vem cá…" - referia-se a um pobre coitado que fora apanhado pelo desabamento quando bebia num dos botequins da rua do Cotovelo, logo abaixo do Castelo de São Sebastião: Que é do teu camarada  A água do monte levou.  Não foi água, não foi nada, Foi cachaça que o matou . Fala-se em muitas vítimas e enormes prejuízos materiais, mas os números são desconhecidos. Tal foi a magnitude deste temporal que o príncipe regente ordenou que as igrejas ficassem abertas para acolher os desabrigados e encomendou estudos sobre as causas da catástrofe. As “Águas do Monte” também ficaram registradas em crônica sofisticada do Dr. José Vieira Fazenda, antigo bibliotecário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IGHB) que escreve “Antiqualhas e memórias do Rio de Janeiro”, no caso desta narrativa, datada de fevereiro de 1903, nos explicando com riqueza de detalhes como ocorrera a tragédia:
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