Koltès, o drama contemporâneo e a tensão entre os gêneros: reflexões a partir de Jean-Pierre Sarrazac

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  Uendel de Oliveira Silva; Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC); Universidade Federal da Bahia (UFBA) / Doutorando e dramaturgo; Salvador  –   Ba, Brasil; e-mail: uendel.silva@hotmail.com  Título: Koltès, a dramaturgia contemporânea e a tensão entre os gêneros: reflexões a  partir de Jean-Pierre Sarrazac;    Núcleo temático: Dramaturgia en el teatro contemporâneo Resumo Defende a ideia de que a dramaturgia do francês Bernard-Marie Koltès pode ser considerada ainda contemporânea, embora sua última peça completa tenha sido escrita há mais de 23 anos. Desenvolve-se a partir do teórico Jean-Pierre Sarrazac, que aponta como um das características da dramaturgia contemporânea o amálgama de elementos formais pertencentes aos gêneros poéticos épico, lírico e dramático, numa perspectiva não-hierárquica. Analisa as peças  La nuit juste avant les forêts (1988)   e Cais Oeste (2007),   opondo-se à perspectiva de evolução do gênero dramático rumo ao épico, defendida pelo teórico Peter Szondi. Palavras-chave: dramaturgia contemporânea; Bernard-Marie Koltès; gêneros poéticos   A dramaturgia contemporânea abarca um grande número de possibilidades criativas de usos da linguagem. Há autores, cuja obra data de há mais de duas décadas, que ainda hoje são citados como contemporâneos, graças, talvez, à representatividade de sua criação nos dias atuais. Ou, ainda, por sua obra guardar elementos formais que caracterizam, predominantemente, a produção dramatúrgica atual. Entre estes autores figura, por exemplo, o francês Bernard-Marie Koltès. O dramaturgo Koltès nasceu em Metz, na França, em 1948, e faleceu em Paris, em 1989. Suas  peças são um fenômeno editorial em seu país de srcem. Ele deixou uma obra altamente complexa, que aborda temas como marginalização, o sentimento de ser estrangeiro no  próprio mundo, o mal-estar com a própria existência, bem como a solidão, a morte e a violência, etc. Inicialmente considerado um autor marginal, hoje ele é encenado em  vários países do mundo, em várias línguas e é tido como um dos mais importantes autores contemporâneos franceses. Koltès e questões da dramaturgia contemporânea Segundo o teórico Peter Szondi (2001), a partir da crise do drama  ocorrida desde o final do século XIX, os textos dramatúrgicos ocidentais estariam se transformando na perspectiva de um caminho rumo a uma dramaturgia épica. No entanto, se lêssemos a obra de Koltès em busca de elementos que embasassem essa ideia evolutiva proposta por Peter Szondi, esbarraríamos em certos obstáculos. A obra de Koltès, a exemplo do que sugere Jean-Pierre Sarrazac (2012) acerca da produção contemporânea, antes de dirigir-se no rumo ao épico, constituir-se-ia enquanto um amálgama de elementos formais pertencentes aos três gêneros poéticos: lírico, épico e dramático. Para Sarrazac, portanto: Dramaturgias hoje consideradas como essenciais  –   estou falando dos teatros de Bond, Bernhard, Koltès, Müller, Kane...  –   esforçam-se por conjugar o mais estreitamente possível, sem que nunca o primeiro se subordine ao segundo, o regime da cena  dramática (da relação catastrófica com o outro e consigo mesmo) e do quadro épico-lírico (da relação com a sociedade, o mundo, o cosmo). (Ibid, p. 32)  Na maioria dos textos de Koltès, o componente dramático revela-se já a partir do  ponto de vista estrutural: são obras nas quais os personagens são previamente delimitados pela camada textual didascálica, parecem agir por conta própria e tecer seus discursos como que automotivados, pressupondo a ausência de um autor a coordenar aquela trama discursiva.  No entanto,  La nuit juste avant les forêts , por exemplo, a primeira peça srcinal escrita pelo dramaturgo francês, põe em xeque essa estrutura, já que começa expondo o longo texto dito pelo protagonista sem qualquer indicação de personagem através de uma didascália externa específica. Assim, ocorre a aproximação dessa obra da estrutura épica do romance que investe no fluxo de consciência do narrador. Porém, evidenciando uma característica do gênero dramático que se impõe, o discurso do personagem se configura no tempo presente. A longa narrativa do mesmo se  constitui, então, como um grande monólogo que ocorre na atualidade da ação, elemento característico do gênero dramático. Verifica-se, porém, a forte presença dos elementos épico e lírico nessa mesma obra: o discurso do protagonista, além de revelar a preocupação com a descrição objetiva da situação atual do personagem e com a narração de fatos passados, configura-se como um esforço para externar conteúdos subjetivos: seus conflitos, visões de mundo, desejos e medos  –   marcados pela contradição, pela heterogeneidade e pela flutuação ou instabilidade discursiva. A própria figura para quem o falante dirige sua enunciação  –   cuja natureza jamais é revelada e cuja presença não parece ser confirmada  –, que poderia constituir a outra “ponta” do diálogo, pode, inclusive, ser entendido como fruto da imaginação do falante. Outras obras de Koltès também se alimentam dessa convivência entre os gêneros. Como, por exemplo, Cais Oeste . Nessa peça, os personagens estão delineados; há um conflito que se destaca, envolvendo vontades e ações que se opõem, bem como a existência de uma curva dramática. Formalmente, a peça também parece absolutamente convencional, a um olhar superficial. Porém, a leitura mais acurada dos discursos e de sua distribuição entre os personagens, revela um texto complexo, que mescla elementos líricos, épicos e dramáticos. Ao mesmo tempo em que se identifica diálogos construídos nos moldes tradicionais  –   há troca comunicacional, ações e reações são produzidas a partir do que é falado, etc  –  , emergem dos enunciados conteúdos essencialmente líricos, que revelam os estados íntimos dos personagens e que repercutem nos modos de construção do texto. São momentos durante os quais o dramaturgo afasta-se da configuração discursiva lógica, quando as relações dialógicas tradicionais são postas de lado, já que a  preocupação deixa de ser a troca comunicacional entre sujeitos. Há, igualmente, a presença do elemento épico, em trechos onde Koltès, através das didascálias, narra e/ou descreve espaços e ações como o faz um autor de romances,  preocupado com aquele que vai ler a obra. Nessas indicações, o dramaturgo age como um narrador que constrói e expõe o universo ficcional a um leitor. Aspectos conclusivos  A partir dessa breve análise e dos elementos que pude apontar, parece-me,  portanto, que a tensão entre o épico, o dramático e o lírico, sem qualquer pretensão de hierarquização entre os gêneros, entendida pelo teórico francês Jean-Pierre Sarrazac como uma das características da dramaturgia contemporânea, está presente na escrita de Koltès, permitindo considera-lo como um autor pertencente ao leque dos dramaturgos contemporâneos. Ainda que reconheça que essa leitura nada tem de definitiva e está sujeita a revisões, diante de novas visitas à obra do dramaturgo francês. Bibliografia KOLTES, Bernard-Marie.  Cais Oeste . Salvador: Ateliê de Tradução do francês de Jerôme Dubois  –   Universidade Federal da Bahia, 2007.  ______. La nuit juste avant les forêts. Paris: Les Editions de Minuit, 1988. SARRAZAC, Jean-Pierre. Léxico do drama moderno e contemporâneo . São Paulo: Cosac Naify, 2012. SZONDI, Peter. Teoria do drama moderno . Tradução do francês por Luiz Sérgio Rêpa. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.
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