Exposições e invisíveis na antropologia de Lux Vidal

Description
Entrevista, Revista de Antropologia 52(2), 2009. Quando nos recebeu para esta entrevista comemorativa de seus 80 anos, a professora Lux Vidal estava prestes a seguir em mais uma de suas inúmeras viagens ao Oiapoque (AP), no extremo norte do Brasil,

Please download to get full document.

View again

of 26
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Information
Category:

Gadgets

Publish on:

Views: 3 | Pages: 26

Extension: PDF | Download: 0

Share
Transcript
  Exposições e invisíveisna antropologia de Lux Vidal Valéria Macedo & Luís Donisete Benzi Grupioni Pesquisadores associados ao Núcleo de História Indígena e do Indigenismo da USP  Quando nos recebeu para esta entrevista comemorativa de seus 80 anos,a professora Lux Vidal estava prestes a seguir em mais uma de suas inú-meras viagens ao Oiapoque (AP), no extremo norte do Brasil, onde vemtrabalhando há duas décadas. Mais uma exposição seria inaugurada noMuseu Kuahí, que conta com sua assessoria antropológica e é idealiza-do e mantido pelos povos da região do Uaçá, que incluem os Karipuna,Palikur, Galibi Marworno e Galibi Kali’na. É para estes últimos que sevolta a exposição a ser inaugurada no próximo 19 de abril, abarcandodiferentes tempos e lugares, como a Guiana Francesa, o Brasil e a Europa,desde as exposições universais do final do século XIX até os dias de hoje. 1 Lux não apenas nos conta sobre esta e outras exposições em que es-teve envolvida, como também coloca questões relativas ao campo da et-noestética no Brasil, no qual foi uma das precursoras. Além de sua pro-dução acadêmica e atividades docentes, ela foi responsável pelo AcervoPlínio Ayrosa, do Departamento de Antropologia da USP, organizouimportantes coleções etnográficas e participou de grandes exposiçõessobre índios. Também foi pioneira tanto nos estudos sobre os Xikrincomo dos povos do Uaçá. Esteve envolvida, ainda, na criação das prin-cipais organizações indigenistas, conciliando, em trajetórias paralelas,engajamento e reflexão acadêmica. Este ano Lux Vidal receberá o título  E  XPOSIÇÕES   E   INVISÍVEIS   NA     ANTROPOLOGIA    DE  L UX   V  IDAL - 790 - de professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Hu-manas da USP. Ao fazer um balanço de seus itinerários, Lux comenta com satisfação o fechamento de ciclos, ao mesmo tempo em que apon-ta para outras aberturas. Lux durante pesquisa de campo, no Oiapoque.Foto: Francisco Paes, 2006. * * *  R  EVISTA    DE  A  NTROPOLOGIA  , S  ÃO  P  AULO , USP, 2009, V  . 52 N º 2. - 791 - Você é conhecida como uma das precursoras dos estudos de etnoes-tética no Brasil, tanto por seus trabalhos sobre os Kayapó-Xikrin e,mais tarde, sobre os povos do Uaçá, quanto pela orientação de tra-balhos que contribuíram para o desenvolvimento dessa área no país.Como você avalia, em sua trajetória e na produção contemporânea de modo geral, a inflexão para o imaterial ou o invisível na aborda- gem da arte e estética indígena?  Não uma pioneira, mas iniciando uma nova abordagem nesse campoquando já se reconhecia que a corporalidade era um tema central para entender as sociedades e cosmologias indígenas. Acontece que, traba-lhando com um povo Jê, acabei fazendo um estudo mais estruturalista,centrado em desvendar a própria estrutura interna do grafismo xikrin eos processos de aplicação, além das relações entre grafismo e morfologia social. O papel do sobrenatural e os vínculos entre o visível e o invisíveleu só vim a entender profundamente quando fui para o Uaçá, pesquisarentre povos Carib, duas décadas depois (Vidal, 2007a). Já os antropólo-gos que trabalhavam com os Tupi perceberam naquela época a dimen-são cosmológica da pintura corporal, como foi o caso de DominiqueGallois entre os Wajãpi (Gallois, 1988) e Regina Polo Müller entre os Assuriní do Xingu (Müller, 1990). Mais recentemente, Aristóteles Bar-celos Neto (2008) e Els Lagrou (2007), que foram meus orientandos,influenciados pelo perspectivismo, pela noção de agency   e por uma lite-ratura internacional sobre o tema, além de um primoroso trabalho decampo, confirmaram que a estética não é apenas representação, metáfo-ras, mas que os objetos, imagens e cantos têm agência, são coisas vivas.Lúcia Hussak van Velthem (2003) antecipadamente teve uma percepçãodisso. Ninguém tanto quanto ela trabalhou esses aspectos. Foi muitoimportante. Mas para ela essa estética sempre vinha dos seres primevos,da mitologia. Como ela não estudou em profundidade o xamanismo,  E  XPOSIÇÕES   E   INVISÍVEIS   NA     ANTROPOLOGIA    DE  L UX   V  IDAL - 792 - não abordou essa dinâmica contínua entre o visível e o invisível, que é oque alimenta a estética indígena. E, de fato, no Uaçá é assim que acon-tece. No ritual do turé, o xamã está sempre cantando e convidando todosos invisíveis, que são os bichos, entidades, as clarinetas, o pote de caxiri,o próprio caxiri; todos os objetos e mesmo a bebida são pessoas, quevêm, cantando, prestigiar a festa. Enquanto a decoração nos objetos sãoimagens, o xamã, no ritual, evoca o movimento em terceira dimensão:as pessoas chegam pelo seu canto todas ornamentadas, invisíveis, mascomo pessoas. Não são apenas representações, e isso tanto Aristótelesquanto Els perceberam. Eu, nos Xikrin, naquela época, percebi que a plumária tinha uma relação com o sobrenatural, com os mitos, mas foiIsabelle Vidal Giannini (1991) quem desenvolveu mais esse aspecto.César Gordon (2006), ao dar continuidade aos estudos xikrin tambémaborda este tema e amplia sua compreensão para uma dimensão política e econômica em um contexto contemporâneo e de grandes mudanças. legenda.  R  EVISTA    DE  A  NTROPOLOGIA  , S  ÃO  P  AULO , USP, 2009, V  . 52 N º 2. - 793 - Nesse campo de estudos, Grafismo indígena   , publicação que você organizou em 1992, foi um marco. Como foi o contexto de sua pro-dução?  Grafismo indígena   (1992) virou um clássico. Esse livro é o resultado deum seminário de pós-graduação sobre o tema. Além dos alunos que par-ticiparam do curso e do livro, convidei para escrever artigos Berta Ri-beiro, Jean Langdon, Niéde Guidon da arqueologia, e Jussara Gruber.Eu teria gostado que todos os meus cursos tivessem sido assim, porque a minha maior contribuição não é o que eu escrevi, e sim o que falei econstruí nas aulas. E muitas coisas nunca foram registradas, se perde-ram. Isso é cabeça de professor do ensino secundário, como fui durantemuitos anos. A gente se dedica ao ensino. Fazer as coisas individual-mente nunca me interessou muito, não acho tão produtivo quanto umtrabalho coletivo. E nesse livro pude juntar várias pessoas e abordagens.Publiquei, alguns anos depois, outro trabalho coletivo sobre a diversi-dade e a riqueza das manifestações estéticas indígenas, em contextos di-ferentes (Vidal, 2001). Gosto muito dele.  A esse respeito, conte-nos um pouco sobre essa época de professora secundária e de sua formação em antropologia. Meus pais migraram em 1948 para os Estados Unidos, e lá, na Univer-sidade, entre outras matérias, cursei antropologia. Foi um curso que memarcou. Eu gostava do Irving Goldman, que era meu professor e traba-lhou com os Kubeo. Ele foi aluno de Ruth Benedict, que por sua vez foialuna de Boas. Então essa era a orientação, a escola culturalista america-na, além das leituras de Malinowski e dos africanistas, um pouco o queencontrei na USP quando cheguei aqui. Depois de terminar meus estu-dos, em 1951, voltei para a França, onde me casei. Comecei a fazer, na 
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks