Ensino de História: trajetórias de uma disciplina na educação básica

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  Acta Scientiarum http://www.uem.br/actaISSN printed: 1679-7361ISSN on-line: 1807-866!oi: 10."0#/acta$cihuman$oc.%3i1.17663 Ensino de História: trajetórias de uma disciplina na educação básica José Petrúcio de Farias Júnior  Secretaria Municipal de Educação, Núcleo de Educação a Distância, Universidade Federal de São João del-Rei, Av !"a#pa$nat, %&'&, %(('')*' , Franca, São +aulo, rasil E  -  #ail petrucio.r/terraco#0r  RESUMO.  Observamos, especialmente nas décadas de 80 e 90, significativo recrudescimento das reflexões em torno do ensino de História no Brasil. esse !nterim, assiste"se # emerg$ncia de diversas propostas curriculares, nos %mbitos federal, estadual e municipal, &ue levam consigo o rótulo de inovadoras, &uando comparadas a pol!ticas curriculares anteriores. 'ssim, ao tomar como refer$ncia o ensino de (istória na )duca*+o Bsica, pretendemos apresentar uma vis+o panor%mica das formas (istóricas do ensino de (istória no pa!s com a finalidade de demarcar as especificidades do saber (istórico escolar e sua estreita rela*+o com as pol!ticas educacionais, mais precisamente, com as pol!ticas curriculares. Palavras-chave: saber (istórico escolar, proposta curricular de História, pol!ticas educacionais. The teaching of History: trajectories of the discipline in basic education ABSTRACT.  -(e 980s and 990s /ere t/o decades of significant intensification on reflections on t(e teac(ing of (istor in Bra1il. 2n t(e meantime, various curricular proposals emerged at t(e federal, state and municipal levels /(ic( /ere labeled as innovator /(en compared to previous curricular policies. 3ince t(e topic of t(e teac(ing of Histor in Bra1ilian basic education is discussed, an overvie/ of t(e forms of teac(ing Histor is provided to pinpoint t(e particularities of sc(ool 4no/ledge on (istor and its close relations(ip /it( educational policies, especiall curricular policies. Keywords:  sc(ool 4no/ledge on (istor, curricular proposals of Histor, educational policies. Introdução 5efletir sobre a (istória do ensino de História re&uer a alus+o a diversas dimensões do ensino &ue extrapolam os limites de uma anlise centrada nas propostas curriculares ou pol!ticas p6blicas em vigor em nosso pa!s desde o momento em &ue a História se estabeleceu como disciplina curricular na educa*+o bsica. 7 necessrio pensar sobre os métodos de ensino, sobre a rela*+o entre as propostas curriculares federais e estaduais e suas formas de aplica*+o nas unidades escolares, sobre a avalia*+o e emprego de materiais didticos em sala de aula, sobre a organi1a*+o e sele*+o dos conte6dos ensinados, sobre os sistemas de avalia*+o, entre outros aspectos. -rata"se, como se observa, de uma reflex+o &ue extrapola os limites das prticas e dos saberes docentes, por&uanto pretende pensar a disciplina sob a ótica dos obetivos da educa*+o bsica brasileira em diferentes momentos (istóricos e sob as concep*ões de (istória produ1idas pela (istoriografia. ' despeito da complexidade do tema e dados os limites desse artigo, ambicionamos apresentar as formas (istóricas do ensino de História na )duca*+o Bsica sob a ótica das pol!ticas educacionais &ue colaboraram para emerg$ncia, consolida*+o e fortalecimento dessa disciplina nos curr!culos escolares. e acordo com 5uc4stadter e 5uc4stadter :;00, p. <8=, atribui"se aos esu!tas a responsabilidade pela sistemati1a*+o da educa*+o no Brasil. )m outras palavras, coube aos esu!tas, no %mbito do proeto civili1ador portugu$s, instituir um ensino letrado e sistemati1ado, per!odo denominado por 3aviani : apud 5>?@3-'-)5A 5>?@3-'-)5, ;00, p. <9= de pedagogia bras!licaC, &ue se inicia com a c(egada dos  esu!tas em DE9 e obetivava a cate&uese dos gentios, proeto &ue confere # ?ompan(ia de Fesus um significativo papel tanto na con&uista de novos fiéis, em um momento (istórico marcado por dissensões religiosas na )uropa, &uanto na con&uista de novas terras. ?om a publica*+o das diretri1es educacionais dos  esu!tas "  Ratio Studiorum , assiste"se a uma nova fase no campo da educa*+o denominada por 3aviani de  &cta Scientiarum. 'uman and Social Science$(arin)*+ %. 3+ n. 1+ p. 000-000+ ,an.-,une+ #013  2Farias Júnior  pedagogia esu!ticaC, &ue se estende até <D9. esse per!odo, estabelece"se, por meio da  Ratio , um conunto de regulamentos e orienta*ões pedagógicas &ue definia mais prticas didticas do &ue conte6dos a serem ministrados, tendo em vista propostas evangeli1adoras, de forma*+o moral e de difus+o das virtudes crist+s.'ssim, a import%ncia legada pelos esu!tas no Brasil ?olonial n+o se restringe ao proeto missionrio &ue, em certa medida, subsidiava o proeto coloni1ador"civili1ador portugu$s, mas também # empreitada educacional, pois os alunos recebiam, em seus colégios, prepara*+o (uman!stica para o ingresso nas universidades portuguesas de 7vora e de ?oimbra. 7 poss!vel identificar nesse !nterim a produ*+o de comp$ndios didticos dedicados ao ensino de História, entre eles, o  Epítome Cronológico, Genealógico e Histórico , escrito pelo padre missionrio esu!ta 'ntónio Garia Bonucci :D"<;8= e publicado em <0 a fim de &ue fosse utili1ado no ?olégio Fesu!tico da Ba(ia em fins do século IJ22, tal como menciona 5uc4stadter e 5uc4stadter :;00, p. <9=. -rata"se de um manual n+o mais direcionado exclusivamente # cate&uese, mas ao ensino de temas de (istória sacra e profana no curso de Humanidades oferecido pelo ?olégio, tal como sustentam os pes&uisadoresK Bonucci une em seu comp$ndio a História 3acra, com $nfase # (istória dos profetas b!blicos, especialmente Fesus, e da 2grea ?atólica, e a História profana, dos reinos da antiguidade até os reinos da modernidade. 's (istórias das monar&uias s+o, em geral, apresentadas a partir da cronologia dos reis, para legitimar a constru*+o das na*ões :5>?@3-'-)5A 5>?@3-'-)5, ;00, p. "<=. essa forma, observa"se a valori1a*+o de conte6dos ou temas de História, particularmente de História 'ntiga, para endossar a (istória da 2grea nos processos de forma*+o dos )stados acionais europeus,  &ue a $nfase por sobre os profetas b!blicos e os reinos da antiguidade, no interior de uma narrativa factual, linear e progressiva, colaborava em geral para a legitima*+o dos )stados acionais modernos europeus. Jisto por esse %ngulo, é oportuno considerar &ue a perspectiva crist+"euroc$ntrica da narrativa (istórica nesses comp$ndios apresentava"se, em parte, como tentativa de legitimar a forma*+o dos )stados acionais, especialmente no &ue tange ao fortalecimento de um sentimento nacionalA sentimento &ue, no Brasil, refor*ava o pertencimento a Lortugal, especialmente aos fil(os de colonos &ue poderiam se tornar futuros membros da Ordem ou funcionrios da ?oroa Lortuguesa.'dvertimos, porém, &ue o fato de os esu!tas ensinarem temas de História em suas escolas nos séculos IJ22 e IJ222 n+o significa &ue este con(ecimento fosse recon(ecido como disciplina escolar segundo a defini*+o contempor%nea &ue dela temos, por&uanto n+o integravam um conunto organi1ado de saberes e de procedimentos e finalidades espec!ficos ao conte6do de &ue trata e formas próprias para sua apresenta*+o, nem se constitu!a como (istória cient!ficaC   :?H)5J)M, 990=. ' História, na condi*+o de ci$ncia, organi1a"se apenas no transcorrer do século I2I. 'lém disso, Nonseca :;00, p. D= esclarece &ue a (istória, tal como ensinada nos colégios esu!tas, detin(a uma fun*+o meramente instrumental, com obetivos exteriores a ela. ?om a expuls+o da ?ompan(ia de Fesus, em <D9, e a cr!tica aos modelos educativos marcados pela influ$ncia dos padres esu!tas, introdu1iram"se, no governo de Gar&u$s de Lombal :<D0P<<<=, diretri1es educacionais pautadas por medidas reformistas inspiradas pelo enciclopedismoC :5OG')MM2, 99<, p. =, cua proposta provin(a das ideias de enciclopedistas franceses &ue ambicionavam libertar o ensino da estreite1a e do obscurantismo &ue imprimiram os esu!tas. o entanto, tais iniciativas n+o redundaram numa reforma de ensino, como explica 3odré Q...R a reforma pombalina, &ue decorre de necessidades ligadas # expuls+o dos esu!tas, n+o cria estrutura nova, limitando"se a prescri*ões gerais. ela, no &ue afetou a colSnia, a conse&T$ncia ostensiva na fragmenta*+o, na dispers+o, &ue passa a constituir, no ensino, a caracter!stica maior Q...R :3O57, 99E, p. ;8=. ' respeito da expuls+o dos esu!tas e seus reflexos no ensino, 5omanelli declara &ue as primeiras provid$ncias para a substitui*+o dos educadores e do sistema educacional esu!tico consumiram um lapso de aproximadamente  anos :5OG')MM2, 99<, p.=. )sse intervalo de tempo foi marcado por, pelo menos, dois modelos educacionaisK passaram a existir escolas leigas e confessionais, porém, ambas foram marcadas por princ!pios educacionais (erdados do sistema esu!tico, como podemos observarK 3uprimida, pois, a ?ompan(ia, e afastada do ensino, o )stado, &ue n+o intervin(a na gest+o de escolas elementares e secundrias, tomou a seu cargo, por iniciativa de Lombal, a fun*+o educativa, &ue passou a exercer em colabora*+o com a 2grea, aventurando"se a um largo plano de oficiali1a*+o do ensino :'U)J)O, 99, p. D;<=. Lode"se inferir &ue a atua*+o da 2grea como órg+o colaborador do )stado nas interven*ões sobre o ensino relaciona"se # despreocupa*+o da Getrópole no tocante # elabora*+o de um sistema de ensino singular para a ?olSnia. estaca"se, nesse sentido, a  &cta Scientiarum. 'uman and Social Science$(arin)*+ %. 3+ n. 1+ p. 000-000+ ,an.-,une+ #013  História: trajetórias de uma disciplina na Educação Básica3 abertura gradativa ao modelo de ensino franc$s em &ue os temas de História passaram a enfocar, em geral, um modelo explicativo ancorado na ideia de progresso da (umanidade com desta&ue ao processo de srcem e desenvolvimento das na*ões e de cren*a nas leis e na usti*a como promotoras do bem"estar e da felicidade dos (omens :NO3)?', ;00, p. E0=. -al como pressupun(a o modelo educativo revolucionrio franc$s, cabia apresentar aos educandos o passado glorioso da na*+o e os feitos dos grandes vultos da ptria  . o Brasil, a História só se constitui como disciplina escolar, isto é, como conunto de saberes escolares srcinados da produ*+o cient!fica e dotado de métodos pedagógicos próprios, após a independ$ncia, situa*+o &ue se consolida em 88, momento em &ue ela se torna oficialmente um componente curricular do ?olégio Ledro 22 ao longo de suas oito séries e passa a ser exigida por muitas academias, tais como os cursos ur!dicos de 3+o Laulo e de Olinda, em 8A nas faculdades de medicina, a partir de 8DE e para o ingresso na escola Lolitécnica e na )scola de Ginas de Ouro Lreto, fundadas na década de 8<0, entre outros :L2M)--2, 990, p. ;9=. esse contexto, a História aparece como conte6do (uman!stico proped$utico a estudos superiores.' (istoriadora Garia 'parecida Meopoldino -ursi -oledo sustenta &ue a constitui*+o dessa disciplina escolar e as formas escolares &ue passaram a deline"la n+o se dissociam de uma anlise ancorada na mudan*a pol!tica ocorrida no Brasil no primeiro &uarto do século I2I e na imagem de a*+o forada pelas elites imperiais. 3ob essa ótica, esse processo de criar a imagem de a*+o, tornou"se necessrio construir um saber sobre o passado nacional, pois se um con(ecimento sobre as na*ões apresentava"se necessrio #&ueles sueitos &ue de maneira ativa viviam o momento de consolida*+o do 2mpério brasileiro, da mesma forma construir um saber sobre o passado nacional era um dos camin(os considerados mais acertados para &ue se recon(ecesse o pa!s como uno Q...R recon(ecer o 2mpério como um e unoC foi o fio condutor da constru*+o do imaginrio do )stado brasileiro como a*+o :-OM)O, ;00D, p. =. 'ssim, tudo leva a crer &ue, no pós"independ$ncia, o principal obetivo do sistema educacional brasileiro continuava a ser a forma*+o das elites dirigentes, pois a exclus+o social estava 1  &inda ue undada em um proeto poltico ilumini$ta de de$en%ol%imento da$ na2e$+ na pr*tica+ o ace$$o  educa4o continua%a re$trito $ amlia$ aba$tada$ e o proce$$o educati%o ra)mentado pelo $i$tema de aula$ a%ul$a$ ou aula$-r5)ia$ em ra4o da alta de proe$$ore$+ materiai$ did*tico$ e recur$o$ inanceiro$. iletti 1990+ p. #7 declara ue o$ aluno$ tinham a liberdade de e$colher o ue pretendiam e$tudar e concluam o$ e$tudo$ no perodo em ue podiam. Ne$$e$ e$tudo$ a%ul$o$+ a e$colha do$ contedo$ limita%a-$e+ em )eral+ $ di$ciplina$ e;i)ida$ no$ e;ame$ preparat<rio$ para o$ cur$o$ $uperiore$+ $i$tema de en$ino ue $e perpetua no perodo mon*ruico. marcada pela escravid+o e por todas as implica*ões  ur!dicas, pol!tico"culturais e econSmicas &ue ela congregava. 'té a década de 80, a &uest+o predominante da narrativa (istórica em comp$ndios de História apresentava #s elites a &uest+o da identidade nacional bem como reflexões sobre a constru*+o da na*+o brasileira, abordagens &ue inevitavelmente perpassavam o tema da mesti*agem.-ais debates foram obeto de reflex+o de diversos pes&uisadores pertencentes ao 2nstituto Histórico e Veogrfico Brasileiro :2HVB=, criado em 88, entre os &uais se destaca a abordagem para a escrita da História apresentada pelo alem+o Jon Gartius, &ue defendia uma História do Brasil &ue partisse da conflu$ncia das tr$s etnias, no interior das &uais o brancoWcivili1adoWcrist+o é evidenciado, as demais etnias, a saberK afrodescendentes e ind!genas atuavam como cooperadores ou colaboradores do processo civili1ador do branco europeu. 7 sob essas circunst%ncias (istóricas &ue a História se consolida como disciplina escolar, tal como explica )l1a adai :;0, p. ;9=K Q...R se atentarmos para as &uestões postas pelos programas, curr!culos, pelas produ*ões didticas e demais recursos e materiais de ensino Q...R, elas giraram, principalmente, sobre &uem deveriam ser os agentes sociais privilegiados formadores da na*+o Q...R procurou"se garantir, de maneira (egemSnica, a cria*+o de uma identidade comum, na &ual os grupos étnicos formadores da nacionalidade brasileira apresentavam"se, de maneira (armSnica e n+o conflituosa Q...R portanto, o negro africano e as popula*ões ind!genas, compreendidas n+o em suas especificidades etnoculturais eram os cooperadores da obra coloni1adoraWcivili1atória condu1ida pelo branco portugu$sW europeuWcrist+o :''2, ;0, p. ;9=. Nonseca acrescenta &ue Q...R produ1ia"se e ensinava"se, a ulgar pelos programas e pelos livros didticos, uma História eminentemente pol!tica, nacionalista e &ue exaltava a coloni1a*+o portuguesa, a a*+o missionria da 2grea católica e a monar&uia   :NO3)?', ;00, p. E<=. 3ócios ou colaboradores do 2HBV, comumente produtores de livros didticos de História, tais como Foa&uim Ganuel de Gacedo, Fonat(as 3errano e 5oc(a Lombo, apostam em um ensino de História orientado para a forma*+o de um cidad+o adaptado # ordem social e pol!tica vigente, ou sea, eram materiais &ue contin(am significativa inclina*+o #s diretri1es de forma*+o moral e c!vica.' proposta curricular do ?olégio Ledro 22, &ue abordava o ensino de História, inclu!a ao longo dos anosK História 3agrada e outrina ?rist+, Geographia e História 'ntiga, História 5omana, Geographia  e História da 2dade Gédia, História Goderna e  &cta Scientiarum. 'uman and Social Science$(arin)*+ %. 3+ n. 1+ p. 000-000+ ,an.-,une+ #013  Farias Júnior  ?ontempor%nea e, em geral, nos anos finais da escola secundria, História Ltria e Chorografia  e História do Brasil. ' partir de 88;, os programas de ensino de História do ?olégio Ledro 22 (abituaram"se a utili1ar o termo História >niversal para congregar os conte6dos de História 'ntiga, Gedieval, Goderna e ?ontempor%neaA  o termo História Ltria foi comumente substitu!do por História e Chorografia  do Brasil.?omo os proetos educacionais do 2mpério, em geral, adotavam manuais de (istória franceses, era comum &ue se perpetuasse nos livros didticos o prisma euroc$ntrico, no interior do &ual a História do Brasil detin(a um papel secundrio,  &ue muitas ve1es apenas atuava como ap$ndice ou ilustra*+o dos processos (istóricos &ue ocorriam no continente europeu. essa forma, a denominada civili1a*+o europeia ocidentalC era concebida como meta ou par%metro para as outras na*ões, inclusive o Brasil, &ue, # semel(an*a dos )stados nacionais europeus, reclama para si um lugar entre as na*ões civili1adas. -al abordagem pode ser sinteti1ada por Nran*ois Nuret &ue declara &ue, no século I2I, Q...R a (istória é a rvore genealógica das na*ões europeias e da civili1a*+o de &ue s+o portadorasC   : apud  ''2, ;0, p. ;8=.3egundo Nonseca :;00, p. D=, com o advento da 5ep6blica, intensificou"se a &uest+o da relev%ncia da (istória nacional nos curr!culos escolares e um dos desdobramentos desses debates pol!ticos resultou na introdu*+o de mais uma disciplina escolar 2nstru*+o Goral e ?!vicaC &ue, associada ao ensino de História, obetivava refor*ar o sentimento patriótico da popula*+o. ' respeito desse programa de ensino a (istoriadora 5ebeca Vontio esclarece &ueK Q...R difundiu"se a perspectiva de &ue a escola e o ensino deveriam denunciar os atrasos impostos pela monar&uia e assumir o papel de regenerar os indiv!duos e a própria na*+o, colocando o pa!s na rota do progresso e da civili1a*+o. 'ssim como ocorrera ao longo do século I2I, o con(ecimento do passado tin(a grande import%ncia, indicando o papel estratégico atribu!do # escrita e ao ensino da (istória para a consolida*+o do novo regime, vislumbrada através da efetiva*+o de uma pedagogia do cidad+o ade&uada # nova conuntura :VO-2FO, ;00, p. ;=. Larticularmente, no contexto da sociedade brasileira pós"5evolu*+o de 90 e no %mbito das pol!ticas educacionais, assiste"se # publica*+o da reforma educacional Nrancisco ?ampos de 9, cua $nfase dirige"se # renova*+o metodológica, proveniente, em parte, da expans+o das ideias da )scola ova no Brasil ; , no interior da &ual a pedagogi1a*+o da HistóriaC  3  foi marcada por seus dilogos com outras ci$ncias, entre elas, a Lsicologia e a 3ociologia :3?HG2-, ;0;, p. 00=.  anos após a reforma Nrancisco ?ampos, destaca"se, no governo de Vet6lio Jargas, a nova Mei Org%nica do )nsino 3ecundrio, também con(ecida como reforma Vustavo ?apanema &ue conferiu ao professor autonomia didtica e restabeleceu a História do Brasil como disciplina autSnoma, no entanto perpetuaram"se prticas de ensino de História direcionadas # forma*+o moral e patriótica. )m outras palavras, a disciplina continuou a se apoiar nos grandes acontecimentos em geral voltados para o fortalecimento dos sentimentos de civismo bem como os direitos e deveres das novas gera*ões para com a ptria e a (umanidade. Jerifica"se, ademais, a continua*+o de uma abordagem pol!tica e militar, assentada na recita*+o de nomes de l!deres pol!ticos, listas de datas e feitos (eroicos de personagens (istóricos.'lém disso, convém considerar o carter tendencioso dos materiais didticos no &ue di1 respeito # tentativa de forma*+o do cidad+o nos moldes do interesse do )stado, ao fortalecimento do sentimento nacionalista, # valori1a*+o das a*ões pol!ticas dos presidentes da 5ep6blica, bem como o direcionamento da narrativa (istórica escolar &uanto # compreens+o da import%ncia da ordem coletiva e das atuais institui*ões pol!ticas e administrativas. 'verigua"se, em carter abrangente, Q...R a orienta*+o dos estudos para a (istória biogrfica e episódicaC :NO3)?', ;00, p. D=. Fulgamos oportuno mencionar, nesse contexto (istórico, a relev%ncia do primeiro curso universitrio direcionado # forma*+o de professor de História &ue data de 9E, reali1ado na Naculdade de Nilosofia, ?i$ncias e Metras da >niversidade de 3+o Laulo. 3e antes as aulas de História eram, em sua maioria, ministradas por bac(aréis em direito, médicos, literatos, engen(eiros ou por professores estrangeiros :com ou sem forma*+o em História=, a partir deste instante passa a se constituir um grupo de profissionais afinados aos debates acad$micos sobre a # No ue di re$peito ao$ rele;o$ de$$a$ ideia$ no en$ino de 'i$t<ria+ de$taca-$e a nece$$idade de o proe$$or relacionar o$ contedo$ hi$t<rico$ com o pre$ente+ de moti%ar o aluno+ de %aloriar n4o $< o$ a$pecto$ econ=mico$+ ma$ tamb5m 5tico$+ em conormidade com o pen$amento de ,ohn !ewe>+ a utilia4o do m5todo bio)r*ico+ entre outro$ S?'(I!@+ #01#+ p. 10#. 3 eda)o)o$ ou e$tudio$o$ adepto$ da orienta4o peda)<)ica da A$cola No%a+ cua$ propo$ta$ educacionai$ oram introduida$ no Bra$il na d5cada de 19#0+ ue$tiona%am trC$ a$pecto$ centrai$ pre$ente$ no en$ino de 'i$t<ria+ tal como $e identiica%a em materiai$ did*tico$+ a $aber: o predomnio da cronolo)ia e da hi$t<ria poltica no$ pro)rama$ de en$inoD a Cna$e conerida ao nacionali$mo e militari$mo e+ por im+ a metodolo)ia ba$eada na memoria4o de contedo.  &cta Scientiarum. 'uman and Social Science$(arin)*+ %. 3+ n. 1+ p. 000-000+ ,an.-,une+ #013  História: trajetórias de uma disciplina na Educação Básica! escrita da História, os &uais, em certa medida, refletir"se"+o gradativamente no ensino de História. esde 9E;, em maior ou menor grau, a pol!tica educacional brasileira foi marcada por um caloroso debate sobre a educa*+o nacional &ue redundou em 9 na Mei E0;E de iretri1es e Bases da )duca*+o, a &ual outorgava a supress+o do curr!culo fixo e r!gido &ue ambiciona uniformi1ar o ensino em todo o território nacional, orienta*+o vigente desde 90. iante disso, foi atribu!da aos governantes a responsabilidade pela elabora*+o de programas de ensino &ue contemplassem as diversidades regionais.?on&uanto ten(a (avido, nas décadas de D0 e 0, um n6mero significativo de propostas curriculares e proetos para o ensino de História, nos %mbitos estadual e municipal, &ue propun(am a forma*+o de um cidad+o cr!tico, a metodologia continuava a disseminar uma concep*+o de História calcada no encadeamento sucessivo de datas, acontecimentos e personagens (istóricos. 2mporta mencionar &ue a influ$ncia norte"americana sobre o Brasil, após a 3egunda Vuerra Gundial, pode ter contribu!do para formula*+o de novos programas de História expedidos por portarias ministeriais &ue destacavam a amplia*+o e fortalecimento da História da 'mérica nos curr!culos escolares com $nfase # (istória dos )stados >nidos. 'crescenta"se, ainda, o papel da >nesco como incentivadora da produ*+o de materiais didticos &ue contivessem conte6dos (umanistas e pacifistas, isto é, &ue evitassem ideias racistas e preconceituosas de cun(o etnoc$ntrico. O regime militar, instalado em 9E, apenas aprofundou as caracter!sticas  presentes no ensino de História. Lossivelmente, para &ue n+o pudessem contestar a ordem pol!tica vigente, o regime preocupou"se em diluir, no antigo Lrimeiro Vrau, as disciplinas História e Veografia na disciplina intitulada )studos 3ociaisC e tornaram obrigatórias, em todos os graus de ensino, as disciplinas  existentes )duca*+o Goral e ?!vicaC e Organi1a*+o 3ocial e Lol!tica BrasileiraC pela Mei n. D.9;W<. Lara Nonseca Q...R a finalidade bsica dos )studos 3ociais seria austar o aluno ao seu meio, preparando"o para a conviv$ncia cooperativa e para suas futuras responsabilidades como cidad+o   :NO3)?', ;00, p. D<  ) . 5elegada aos anos finais do antigo ;X Vrau, n!vel ainda reservado predominantemente #s categorias sociais mais abastadas, com apenas ; (oras semanais, o ensino de História perpetuava uma narrativa (istórica protagoni1ada n+o por (omens pertencentes a categorias populares, na condi*+o de potenciais agentes (istóricos, mas por grandes personagens (istóricos, comumente oriundos de fam!lias abastadas, &ue deveriam ser cultuados e (omenageados por suas reali1a*ões. -ratava"se de um ensino &ue n+o se preocupava com a anlise cr!tica e refletiva dos acontecimentos (istóricos, pelo contrrio, n+o (avia espa*o para interpreta*+o e anlise cr!tica. Obetivava"se, com essa disciplina, a forma*+o de um cidad+o &ue mel(or servisse aos interesses do )stado. 3ob essa perspectiva, a rela*+o professorWaluno seria marcada pelo autoritarismo, pela concentra*+o de poder e saber nas m+os do professor, pela atitude passiva e receptiva do aluno e pela autoridade do livro didtico.ovas propostas metodológicas e programas para o ensino de História na )duca*+o Bsica só se desenvolveram, com mais propriedade, no final dos anos <0, momento em &ue o regime militar é contestado e as institui*ões pol!ticas repressoras s+o enfra&uecidas. -odavia, os embates e entraves do governo para elabora*+o de diretri1es de ensino possibilitaram &ue professores elaborassem seus próprios curr!culos, &ue, muitas ve1es, eram copiados de propostas curriculares  existentes. e todo modo, o processo de redemocrati1a*+o gerou novas expectativas &uanto ao ensino de História, por&uanto os novos proetos apresentados ansiavam por uma História Q...R mais cr!tica, din%mica, participativa, acabando assim, com a História linear, mecanicista, etapista, positivista, factual e (eróicaC   :NO3)?', ;00, p. ;=. -rata"se de uma forma de mostrar &ue os (omens fa1em a História e s+o produtores de seu próprio con(ecimento (istórico. 3ob essa ótica, os programas de 98, em geral, propagavam, com a pretens+o de serem inovadores em rela*+o ao ensino tradicional, uma sele*+o de conte6dos pautados em uma vis+o de processo (istórico &ue privilegiava as lutas de classe e as transforma*ões estruturais para explicar a História, o &ue implicava, em muitos deles, clara fundamenta*+o marxista. O abandono do ensino de História apoiado na cronologia linear por um ensino calcado nos processos de evolu*+o dos modos de produ*+o n+o rompia substancialmente com o carter etapista, teleológico e generali1ante dos programas tradicionais. 'dicionado a isso, essas novas propostas colaboraram para simplifica*+o da reflex+o sobre os acontecimentos,  &ue produ1iam, em geral, perspectivas mani&ue!stas sob a pretens+o de produ1ir uma (istória cr!tica. 'ssim, era comum &ue professores e alunos retratassem o )stado e a burguesia como perversos diante da bondade e ingenuidade da classe operria. -rata"se de uma narrativa polari1ada e assentada em u!1os de valor &ue negligenciava, por sua ve1, as complexas rela*ões de poder entre diferentes grupos sociais &ue compun(am a sociedade, abordagem &ue supera um ensino ancorado nas dissensões entre categorias sociais consideradas fundamentais # compreens+o dos processos (istóricos. O  &cta Scientiarum. 'uman and Social Science$(arin)*+ %. 3+ n. 1+ p. 000-000+ ,an.-,une+ #013
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