Cultura de Inovação na Perspectiva da Teoria da Prática: um estudo em uma escola de negócios

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Resumo O artigo apresenta um estudo empírico de caráter exploratório em uma instituição de ensino superior brasileira, cujo objetivo é compreender os sentidos que a inovação tem para os membros dessa comunidade. O estudo faz parte de uma pesquisa

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    1 Cultura de Inovação na Perspectiva da Teoria da Prática: um estudo em uma escola de negócios Resumo O artigo apresenta um estudo empírico de caráter exploratório em uma instituição de ensino superior brasileira, cujo objetivo é compreender os sentidos que a inovação tem para os membros dessa comunidade. O estudo faz parte de uma pesquisa mais ampla que busca descrever e compreender a prática de inovação e sua relação com a construção de uma cultura da inovação. O enfoque adotado busca construir uma alternativa às abordagens que priorizam o comportamento e as iniciativas individuais em temas que remetem a fenômenos que estão intimamente ligados à mudança organizacional como a inovação. A pesquisa adotou a fenomenologia como método e a observação participante combinada com entrevistas em  profundidade como estratégia de coleta de dados. O resultado de pesquisa mostra que os sentidos dados à inovação pelos participantes estão em constante construção, manutenção e reconstrução, e são perpassados por contradições. A apreensão dessas contradições amplia a compreensão daqueles sentidos, e é uma forma de acesso à construção da inteligibilidade da  prática de inovação e de outras práticas a elas interconectadas. A contribuição teórica é que a compreensão dos referidos sentidos pode ser o ponto de partida para a compreensão da inovação como uma prática. Do ponto de vista prático, o estudo pode ainda contribuir com as organizações na criação de condições favoráveis à inovação. Na organização estudada, os resultados preliminares impactaram no Comitê de Inovação que mudou o foco da análise do  portfólio de produtos já existentes, para a criação de um ambiente organizacional favorável à inovação. Palavras-chave: Inovação; Cultura de Inovação; Teoria da Prática; Inteligibilidade; Escola de  Negócios. Introdução As organizações atuais, em função das transformações radicais por que passou o nível de desenvolvimento tecnológico da sociedade, tornaram-se dependentes de recursos e  processos substancialmente diferentes dos que até então estavam diretamente ligadas. A inovação ganha destaque nessa sociedade cada vez mais interconectada, onde diversas atividades são realizadas por pessoas e grupos que muitas vezes nem se encontram numa relação face-a-face. Essa interconexão, que possibilita que as atividades sejam realizadas tanto de forma sincrônica como diacrônica, torna importante conhecer os fenômenos sociais nas suas bases mais profundas, nas condições mais elementares da vida social, onde se possa compreender de que forma indivíduo e grupo constituem as relações sociais. Dentre esses fenômenos inclui-se a inovação como produto humano e social. O presente artigo apresenta um estudo empírico de caráter exploratório realizado em uma instituição de ensino superior (IES) brasileira, cujo objetivo é compreender os sentidos    2 que a inovação tem para os membros dessa comunidade, e que aqui chamaremos de organização SGI. Este estudo faz parte de uma pesquisa mais ampla que tem por objetivo descrever e compreender como ocorre a prática de inovação e sua relação com a construção de uma cultura da inovação. Diante dos desafios do mercado, a IES estudada está em busca de  posicionamento de mercado como escola de negócios focada na inovação, e tem como objetivo estratégico a “construção de uma cultura da inovação”.  O enfoque na prática busca construir uma alternativa às abordagens que priorizam o comportamento e as iniciativas individuais em temas que remetem a fenômenos que estão intimamente ligados à mudança (Walker, 2015; Strengers, Moloney, Maller & Horne, 2015). A pesquisa adotou a fenomenologia como método e a observação participante combinada com entrevistas em profundidade como estratégia de coleta de dados. O estudo partiu de noções incipientes de prática de inovação e cultura de inovação, que serviram como norteadoras para o início da pesquisa, coerente com a perspectiva geral adotada baseada na teoria da prática de Schatzki (2006; 2012; 2015), que compreende que uma prática está em constante construção, e só pode ser apreendida e compreendida in situ . O que se apresenta como resultado de pesquisa nesse artigo são os sentidos compartilhados sobre inovação que emergiram da observação participante, das entrevistas em  profundidade e da análise fenomenológica bem como do processo de discussão dos resultados  preliminares com os sujeitos da pesquisa. Dentre eles destaca-se que os sentidos dados à inovação pelos participantes estão em constante construção, manutenção e reconstrução, e são  permeados pelos valores e crenças compartilhados, processo que é perpassado por contradições. A apreensão dessas contradições amplia a compreensão daqueles sentidos. A  pesquisa indica ainda que elas podem ser uma forma de acesso à construção da inteligibilidade da prática de inovação e de outras práticas a elas interconectadas. Referencial teórico O conceito de inovação ganha força a partir do trabalho de Schumpeter (1982) que se  baseia fundamentalmente na capacidade e na necessidade do capitalismo de destruir para criar. O autor adjetiva a destruição para mostrar seu lado criativo no sentido de novas formas de geração de riqueza: novas tecnologias, novos mercados, novos produtos e novas formas de gestão. A partir daí a inovação tem sido abordada com o enfoque na capacidade de criar vantagem competitiva, e evoluiu de uma visão que enfatiza os recursos internos e externos,  passando pela ampliação para perspectivas que levam em conta o conhecimento e o empreendedorismo como fonte de mudança inovadora, tanto de forma incremental quanto disruptiva. A ampliação do papel dos aspectos intangíveis tais como o conhecimento e a atitude empreendedora, coloca a inovação no campo dos fenômenos sociais, pois esses recursos são construídos socialmente (Rodney, 2000). Uma organização passa a ser inovadora à medida que cria condições para que novos conhecimentos apareçam, sejam reconhecidos e aplicados tanto nos produtos quanto nos processos. Essa perspectiva sobre a inovação a coloca também no campo dos fenômenos da cultura, pois envolve padrões, princípios, modos-de-fazer, rotinas e padrões explícitos ou não, que foram incorporados ao longo do tempo (O’R  eilly; Tushman, 2007). A dimensão social e    3 cultural da inovação torna ainda maior o desafio de compreender como ela acontece, bem como de gerenciá-la. Quando dizemos que os elementos acima estão incorporados, estamos dizendo que eles nem sempre são conscientes e visíveis, e seu compartilhamento é complexo. Inovação e cultura ou cultura de inovação? Ao longo das duas últimas décadas muitos estudos enfocaram a cultura e sua relação com a inovação, na busca por compreender as condições nas quais ela ocorre, os elementos que a propiciam e que a limitam. Ahmed (1998) aponta que, como o risco é inerente à inovação, as organizações são muitas vezes levadas a uma posição contraditória de valorizar e defender a inovação como discurso, porém serem avessas a realizar investimentos significativos em sua consecução. Como alternativa, o autor propõe a necessidade de construção de um clima e de uma cultura que direcionem os esforços dos membros da organização no sentido de buscar a inovação. Com isso coloca luz sobre uma série de aspectos que uma lógica instrumental não é capaz de apreender. Em relação ao clima o autor destaca as relações interpessoais, a hierarquia, as condições de trabalho e, por fim, o foco no suporte e nas recompensas, pois são aspectos visíveis e mensuráveis. Já em relação à cultura da inovação o destaque está nos valores e crenças que operam num nível mais profundo. Apesar de ampliar a discussão apontando a importância de elementos intangíveis, e da criação de um ambiente favorável à inovação, a perspectiva do autor é utilitária. Para ele a cultura da inovação é algo que pode ser criado deliberadamente, com o objetivo de garantir que os recursos investidos retornem de forma lucrativa. Essa perspectiva transparece quando considera que a cultura é um “esquema cognitivo que governa o comportamento e as ações  para um dado estímulo ambiental”, e que “a cultura parece derivar das interpretações que os funcionários dão à sua experiência de realidade organizac ional” (Ahmed, 1998, p. 32): influenciar as interpretações e os esquemas cognitivos é o caminho para criar a cultura da inovação em bases adequadas para a consecução dos objetivos. Em dois estudos focados na relação da criatividade e da inovação com a cultura organizacional (Martins; Martins, 2002; Martins; Terblanche, 2003) o esforço foi de construir um modelo de explicação para a influência de elementos da cultura organizacional que favoreçam a criatividade e a inovação, numa relação causal unidimensional. Porém, como aponta Dobni (2008), a cultura da inovação deve ser abordada de uma perspectiva contextual e multidimensional, onde diversos elementos concorrem para sua existência: a infraestrutura de suporte e as características do ambiente de implantação, a intenção em ser inovador, bem como os comportamentos no nível operacional que devem existir para que se possa sustentar uma orientação de mercado e de valor. Baseado em vasta literatura, o autor prioriza esses elementos da cultura da inovação por sua abordagem estar focada em desempenho e resultado, com base em um modelo teórico-operacional de pesquisa. O estudo contribuiu para a ampliação da visão sobre o fenômeno, superando modelos unidimensionais, problema apontado por Wilson, Ramamurth e Nystrom (1999), porém  priorizou as relações causais onde o contexto é apenas um calibrador do modelo, e o objetivo  principal é testar a teoria, sem levar em conta o caráter subjetivo, situado e processual dos elementos intencionais e comportamentais, entre outros. A mensuração de aspectos como esses acabam por incorporar o contexto na investigação, mas de forma concreta (e paradoxal) acaba por dissolvê-lo no constructo lógico-racional, e nas diversas métricas de mensuração.    4 O desenvolvimento de estudos nesse campo evoluiu no sentido de uma maior diversidade de abordagens, inclusive no sentido de questionar o predomínio de pesquisas que enfocam a cultura sempre como um fator positivo na relação com a inovação. Um exemplo é o estudo de Kaasa e Vadi (2010) que aponta o caráter inibidor que a cultura organizacional  pode exercer na inovação, tendo em vista que, a tendência em evitar a incerteza, imposta por essa própria cultura, pode criar barreiras entre as pessoas. Outros estudos adotam uma visão menos determinista, buscando uma abordagem mais compreensiva da cultura da inovação, além de buscar entender o fenômeno em diferentes contextos, tais como pequenas e médias organizações, e em países em desenvolvimento (Wolf, Kaudela-Baum, & Meissner, 2011; Uzkurt, Kumar & Ensari, 2013; Harbi, Anderson & Amamou, 2014). Bruno-Faria e Fonseca (2014) realizaram uma exaustiva revisão de literatura com vistas a descrever os principais modelos de explicação teórica adotados no campo, e as  principais características e significados do termo cultura de inovação. Algumas de suas conclusões inspiraram a realização do presente estudo. Com base no levantamento feito por eles, destaca-se a predominância de estudos quantitativos, certa indefinição do termo cultura de inovação, e modelos teóricos que enfatizam as relações causais. Essas abordagens acabam por gerar algumas limitações e contradições, tais como o dilema entre uma abordagem no nível organizacional, mas baseada em conceitos de caráter individualista. Um exemplo é o trabalho de Martins e Tr  eblanche (2003, p.67) para quem “o contexto de criatividade está no nível organizacional, e o conceito de criatividade pode ser definido como a geração de novas e valiosas ideias [...]  por indivíduos e grupos”. Bruno-Faria e Fonseca (2014) apontam também que há uma predominância em colocar a cultura de inovação no campo da cultura organizacional, e que leva a um dualismo entre os termos. Esse dualismo acaba por colocar a cultura organizacional e a cultura da inovação como epifenômenos um do outro, perdendo de vista as dimensões próprias de cada um dos fenômenos em si mesmos. Os estudos apresentados contribuíram para a ampliação da compreensão do fenômeno da inovação ao enfocar sua relação com a cultura, especialmente por trazer à tona sua dimensão social e seus aspectos intangíveis. No entanto, quer sejam estudos baseados em relações causais em contextos uni ou multidimensionais, quer sejam estudos focados em resultados, a abordagem predominante é representacionista e proposicional, perdendo de vista aspectos importantes por não considerar a inseparabilidade entre sujeito e objeto em estudos sociais e organizacionais (Sandberg; Tsoukas, 2011). Cultura de inovação: uma abordagem baseada na prática O aumento da importância da inovação na geração de valor e na competividade das organizações, e seu caráter social e cultural, são aspectos que contribuíram para que o termo  passasse a ser usado indiscriminadamente e de forma inconsistente. Dentro do que Wood Jr e Paes de Paula (2002; 2006) chamam de  pop management e cultura do management,  o discurso sobre a inovação acabou se tornando mais forte do que a efetiva existência das condições para que ela ocorra. Gestão inovadora, design thinking  , inovação incremental e disruptiva, cultura da inovação, entre outros, são termos que passaram a fazer parte do discurso do mundo corporativo, sem que necessariamente sejam práticas.    5 A prática é entendida aqui como a unidade de análise da organização social, e constituída pelas atividades humanas coletivamente organizadas por meio de arranjos sociomateriais, ou seja, arranjos de pessoas, objetos e artefatos, em uma determinada configuração espaço-temporal, que se manifestam por m eio de “fazeres” e “dizeres” . Nesse sentido, as práticas são constituídas por todas as ações, atividades e objetos materiais, integrados em hierarquias teleológicas, que se manifestam em projetos humanos e coletivos (Nicolini, 2013; Schatzki, 2012).  A construção da inteligibilidade da prática é um elemento fundamental na sua constituição, e o que se propõe nesse estudo é tomar a sua compreensão como ponto de  partida para estudar a cultura de inovação. A inteligibilidade é um elemento importante na constituição da prática de inovação, pois é também o elemento que liga uma prática a outras  práticas, formando uma ordem social local. A inteligibilidade é o sentido coletivo que a  prática tem para os praticantes, e é constituída por uma série de mecanismos fundamentais tais como os entendimentos práticos, as regras, as estruturas teleo-afetivas, os entendimentos gerais e a dimensão estética (Schatzki, 2012). Os aspectos apresentados acima têm forte relação com o contexto e a situação da SGI.  No momento da pesquisa ela se deparava com alguns desafios de mercado, impondo a busca do posicionamento como escola de negócios focada na inovação. Em decorrência disso se viu frente à necessidade de construção de uma cultura de inovação, explícita em seu planejamento estratégico. Essas condições levaram o enfoque da pesquisa a tentar compreender os sentidos atribuídos pelos praticantes à inovação, e de que forma esses sentidos constituem a prática de inovação. Pela importância desse contexto bem como da história da IES, é importante uma breve apresentação do campo de pesquisa. Breve Apresentação do Campo A SGI é uma escola de negócios que oferece cursos de graduação, pós-graduação lato  e  stricto sensu  (mestrado), bem como cursos de aperfeiçoamento de curta e média duração. Criada em 1996 a partir da estratégia de uma renomada IES, que buscava ampliar sua atuação no âmbito nacional. Desde a sua fundação, a SGI buscou construir uma trajetória baseada em valores tais como educação transformadora e formação integral do indivíduo, desenvolvimento sustentável, empreendedorismo responsável, e inovação. Como escola de negócio, sempre esteve pautada pelas políticas da IES de srcem, mas também adotou uma  postura inovadora e transversal, com foco no desenvolvimento de práticas de gestão responsável, com vistas à preparação de profissionais que possam gerar valor, e que sejam agentes transformadores e geradores de desenvolvimento social, empresarial e econômico. Esses princípios e valores se manifestam de forma concreta na sua forma de atuação  por meio de parcerias externas tais como ser signatária do Pacto Global desde 2004, e do PRME (  Principles for Responsible Management Education ) desde 2007, programas da Organização das Nações Unidas. Também se refletem na oferta de serviços, como o  pioneirismo na oferta de um curso de pós-graduação lato sensu  em Gerenciamento de Projetos, que é percebido como uma realização de grande valor pela organização como um todo.
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