Autobiografia e sujeito histórico indígena: considerações preliminares

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A autobiografia, gênero central na bibliografia escrita por ou sobre indígenas nos Estados Unidos, está ausente na bibliografia equivalente no Brasil. Este trabalho questiona as razões desse contraste, resumindo análises sobre a peculiaridade

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  Considerações preliminares 1 Oscar Calavia Sáez RESUMO  A autobiografia,gênero central na bibliografia escrita por ousobre indígenas nos Estados Unidos,está ausente na bibliografia equivalente no Brasil.Este trabalho questiona asrazões desse contraste,resumindo análises sobre a peculiaridade cultural do gênero autobiográfico — profundamente vinculado à formação do indivíduo ocidental —,sobre sua possível tradução ameríndia e sobre as formas pelas quais osujeito histórico indígena tem sido construído no Brasil. PALAVRAS-CHAVE: autobiografia; etnologia; antropologia; história indígena. SUMMARY  Autobiography,widely present in bibliography written by or about the indigenous people in the US,is seldom found in equivalent texts produced in Brazil.This article raises anddiscusses reasons for this contrast.It brings to light problems involving cultural peculiarities ofthe autobiographicgenre — profoundly connected to the formation ofthe occidental individual —,the possibilities ofits Amerindiantranslation and the specific aspects by which the historical indigenous subject has been constructed in Brazil. KEYWORDS: autobiography; ethnology; anthropology; indigenous  people history. NOVOSESTUDOS 76 ❙❙ NOVEMBRO 2006 179 [1] Este trabalho se insere nas ativi-dades do projeto “Transformações in-dígenas:os regimes de subjetivaçãoameríndios à prova da história”(NuTI-PRONEX),desenvolvido emparceria com o Museu Nacional doRio de Janeiro e o PPGAS-UFSC. Sabemos que a etnologia indígena nos Estados Uni-dos detém uma certa senioridade sobre a sua equivalente no Brasil.Com vários decênios de antecedência,ela desenvolveu uma amplaestrutura nas universidades e nos museus,e atingiu padrões descritivosque abaixo do Oiapoque não seriam comuns até os anos 1970.A junio-ridade,certo,tem também suas vantagens,e a nossa etnologia atualapresenta uma vitalidade que hoje seria difícil encontrar mais ao norte.Excetuando essa comparação tão bem inserida no relato Norte-Sul,asreferências mútuas — tão pertinentes se atendermos à unidade cultu-ral do continente — são raras.Entre a etnologia norte-americana e abrasileira instala-se uma distância dada pela cronologia e pelas opçõesteóricas.Dada,também,por uma tendência nem sempre confessada deentender os índios como um assunto interno às nações;ou pelo créditoexcessivo dado a rótulos como latino ou anglo -americano.Podemoslamentá-lo:essa comparação seria em muitos sentidos reveladora. AUTOBIOGRAFIA E SUJEITO HISTÓRICO INDÍGENA  [2] David Annotated Brumble.  Bi-bliography ofAmerican Indian and Es-kimo Autobiographies .Nebraska:Uni- versity ofNebraska Press,1981 UMA HISTÓRIA AMERICANA Um deles é o que aqui vamos examinar.A autobiografia indígena— um gênero praticamente inédito no Brasil,como depois veremos —,desempenha um papel importante na história da etnologia e na pró-pria história indígena dos distantes vizinhos do norte.Uma bibliogra-fia crítica datada em 1981 2 reúne 577 referências.As autobiografiasindígenas são um item comum nos catálogos editoriais norte-ameri-canos,e algumas delas (  Black Elk speaks é o melhor exemplo) têm sidosucesso de venda e marcado presença em tendências globais como aNew Age.Essas autobiografias constituem um conjunto heterogêneo,que vai de relatos de uma ou duas páginas,questionários e cartas,atélivros completos.Podem ser histórias de vida projetadas como tais,ouo que os especialistas chamam de autobiografias cumulativas ,um apa-nhado de documentos escritos em primeira pessoa,dos quais o ana-lista pode inferir uma seqüência autobiográfica.A autoria pode se dis-tribuir de modos muito variados entre o protagonista expresso dorelato e o seu editor-entrevistador-amanuense.Em termos gerais,esem que os marcos sugeridos possam ser entendidos como limites,seria fácil sugerir uma periodização dessa literatura. As autobiografias mais temporãs — escritas já desde a época colo-nial,mas avolumando-se com a Independência — fazem parte da lite-ratura missionária:são testemunhos de conversão,em que os neófitosse esforçam em demonstrar os frutos da evangelização e da educaçãocristã,ou da civilização sem mais nem menos.Mais tarde,e em paralelo à marcha para o Oeste,passam a primeiroplano os relatos co-autorais,redigidos por escritores profissionais,jornalistas ou simpatizantes da causa indígena que exploram a curio-sidade pelo exótico ou a simpatia do público urbano por esse mundoem declínio.É o momento em que aparecem clássicos como as memó-rias de Genónimo,George Bent ou Bear Head. A primeira metade do século XX é o momento em que a autobiogra-fia indígena é promovida pelos antropólogos,inspirados — embora nãoexclusivamente — pelas preocupações da escola de Cultura e Personali-dade.Os pesquisadores pretendem encontrar nesses depoimentos nãosó uma fonte conspícua de informações etnológicas,mas sobretudouma aproximação mais imediata à alma indígena e às relações entre indi- víduo e padrão cultural.Entrevistas,histórias de vida ou depoimentosescritos às vezes pelo próprio protagonista,às vezes na sua língua e às vezes mesmo com a ajuda de pictografias ou silabários indígenas,aca-bam constituindo um excepcional corpus de documentação,que excedeem muito o volume do que foi encaminhado aos prelos acadêmicos oucomerciais.Depois de decênios de intensa produção,o interesse pelasautobiografias decai no meio antropológico,devido à saturação do 180 AUTOBIOGRAFIA E SUJEITO HISTÓRICO INDÍGENA  ❙❙ Oscar Calavia Sáez  181 NOVOSESTUDOS 76 ❙❙ NOVEMBRO 2006 [3] O Handbook ofLatin AmericanStudies traz uma única referência:  Ri-torno alla maloca, autobiografia di uníndio Makuxí  ,de Gabriel Viriato Ra-poso,editado em 1972,em Turim,pelas Missões da Consolata. público,à desaparição dos protagonistas que haviam conhecido a vidaindígena antes do confinamento em reservas,e também ao crescenteceticismo quanto às virtudes epistemológicas do método.Mas renasce pouco depois,desta vez já como uma iniciativa indí-gena,e acaba constituindo talvez o principal gênero da literatura con-temporânea escrita por native americans .Enquanto tal reingressa naacademia,mas desta vez através dos departamentos de estudos literá-rios,estendendo-se logo a seguir pelos novos departamentos de estu-dos culturais. CALVINO E LOYOLA Como disse antes,o contraste com o caso brasileiro é flagrante:aentrada “autobiografia” simplesmente não aparece nos repertóriosbibliográficos da etnologia brasileira 3 .Não se pode descartar que nomeio dessa vasta produção possamos encontrar alguma breve narra-ção em primeira pessoa,ou recompilar umas quantas autobiografiascumulativas,mas,ao que parece,nunca um indígena brasileiro deci-diu-se ou foi solicitado a relatar  sua  vida,e não o mito ou a história doseu povo.Mesmo a geração recente de escritores indígenas que vemtimidamente ganhando espaço no mundo literário ignora esse gênero— significativamente,mostra-se muito mais disposta a escrever mitos.A meio caminho entre a experiência norte-americana e a brasi-leira — embora mais próxima desta —,a bibliografia etnológica dospaíses hispano-americanos apresenta uma lista curta embora signifi-cativa de títulos,em sua maior parte co-produzidos por antropólogosnorte-americanos.Neste caso,o que torna o contraste mais acentuadoé a existência de uma vasta literatura devida a autores indígenas,quefloresce no século XVI para definhar depois com o enregelamento doregime espanhol e a decadência das elites indígenas que se processadurante o século XVII.Em geral,autores como Tezozómoc,Alva Ixtlil-xóchitl ou o Inca Garcilaso dedicam-se à história de uma dinastia oude uma pólis indígena,sem que nunca transpareça uma dimensãoautobiográfica,mesmo quando o autor se apresenta como persona-gem relevante da trama ou quando,como no caso de Felipe HuamánPoma,lembra de incluir um auto-retrato entre as numerosas ilustra-ções de sua obra.Para os fins deste artigo,o contraste entre o caso bra-sileiro e o hispano-americano é circunstancial e menor:a comparaçãocom o caso norte-americano esclarece algumas constantes que,embora maximizadas na literatura brasileira,podem se aplicar semmuitas restrições a outras situações “latinas”.Nas páginas a seguir saltarei sem grandes precauções dos dados peruanos ou guatemalte-cos aos brasileiros:as diferenças entre estes,que sem dúvida existem,deveriam ser analisadas num estágio mais avançado da pesquisa.  Não é preciso procurar muito para dar com as razões desse con-traste maior entre o Norte e o Sul.A autobiografia,longe de ser um dis-curso espontâneo de um indivíduo natural,é um gênero caracteristi-camente ocidental,com marcos bem conhecidos:as confissões deSanto Agostinho ou Rousseau,as vidas ou diários de Cellini ou Pepys,a ficção pouco fictícia de Proust...Mas o Ocidente não é um só.O indi- vidualismo anglo-saxão,com suas raízes calvinistas — especialmentecom essa predestinação que só pode se inferir do exame da própria tra-jetória —,procura no relato autobiográfico uma verdade religiosa oucientífica que nunca poderia se dar com a mesma densidade em outrotipo de relato.Essa elaboração do eu é um fator essencial do individua-lismo constitutivo das sociedades liberais modernas,e muito espe-cialmente da norte-americana,onde o relato autobiográfico dos gran-des homens — as memórias de Franklin são um modelo — cumpremum papel insubstituível entre os textos fundadores.De igual modo,asautobiografias indígenas ocupam um papel de exceção para represen-tar os índios:nenhum etnógrafo bate neste sentido a Black Elk ou aDon Talayesva.Fora do calvinismo,a reflexão autobiográfica ocidental não ocupa omesmo lugar,mas não está de modo algum ausente.Vejamos o casocatólico:o sujeito por excelência da tradição católica é corporativo,ocorpo místico da Igreja;seu sacramento supremo recebe o nome decomunhão,e a salvação é uma empresa coletiva.Um outro sacramento,o da confissão — com sua propedêutica,o exercício espiritual inaciano—,fornece um digno equivalente da autoconsciência formadora doindivíduo protestante.Mas essa ocasião de auto-exame é,sintomatica-mente,objeto de segredo — donde as eventuais reclamações dos mis-sionários de que os índios teimam em fazer a sua confissão em voz alta. As virtudes devem ser públicas,os pecados devem ser privados;o vícioindividualiza.Antes de excluir o gênero autobiográfico — ou o indivi-dualismo em geral — da tradição ibérica em que o Brasil se insere,é pre-ciso lembrar a importância que na literatura espanhola teve um gêneropseudo-autobiográfico,o da novela  picaresca ,cujos protagonistas sãopor definição membros da marginália.É digno de atenção que essegênero de ficção hiperrealista — que teve um influxo considerável emoutras literaturas européias — fosse incorporando outras narrativas às vezes genuinamente autobiográficas,que,mesmo relatando trajetóriashonrosas — vidas de soldados,por exemplo —,tendiam fatalmente aser escritas e lidas segundo as mesmas convenções que as dos patifes.Só essa ficção tingida de reflexão moral atinge um teor autobiográficoque falta em relatos afirmativos de gestas pessoais.O conquistador deMéxico,Hernán Cortés,tinha no final da sua vida,ao que parece,algunsescrúpulos sobre a legitimidade da sua façanha,mas nem tais dúvidasnem quaisquer outras foram escritas pelo conquistador,que no entanto 182 AUTOBIOGRAFIA E SUJEITO HISTÓRICO INDÍGENA  ❙❙ Oscar Calavia Sáez
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