Ambiente & Sociedade MERCADORES DE MORALIDADE: A retórica ambientalista e a prática do desenvolvimento sustentável

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  Ambiente & Sociedade  ■ Campinasv. X, n. 2  ■ p. 171-188  ■ jul.-dez. 2007 TANGENCIAL/ TANGENTIAL 1 Sociólogo pela Universidade de Brasília. 2 Professor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília – UnB. Autor para correspondência: Marcel Bursztyn, Centro de Desenvolvimento Sustentavel, Universidade de Brasilia – UnB, SAS, Quadra 5, Bloco H, 2º andar, CEP 70070-914, Brasilia, DF, Brasil. E-mail: marcel@unb.brRecebido: 02/8/2007. Aceito: 09/8/2007. MERCADORES DE MORALIDADE: A  retórica ambientalista e a prática do desenvolvimento sustentável IGOR FERRAZ DA FONSECA 1 MARCEL BURSZTYN 2 1 Introdução Nas últimas quatro décadas do século XX, a questão ambiental ganhou importância em diversos campos das sociedades modernas. Os discursos ambientalistas estão presentes no domínio público dessas coletividades e temas ambientais são discutidos e aparentam estar sendo assimilados em diferentes esferas: na política, na economia, na cultura, na educação, nas artes, na mídia em geral. Por outro lado, e de forma paradoxal, não parece estar havendo reversão das práticas que provocam degradação do ambiente. A questão é: por que indiví-duos que dizem saber como agir a favor da sustentabilidade planetária, e compreendem os motivos desse ato, agem de modo contrário ao que afirmam ser seus pontos de vista? Esse texto explora a idéia de que tal comportamento não é irracional e que, ao contrário, segue uma lógica própria, que está em sintonia com a busca de vantagens mate-riais e simbólicas. Muitos “pegam carona” na retórica ambientalista, contribuindo, assim, para o aparente consenso sobre a questão. Por ser muito mais aparente do que real, a efeti-vidade prática do discurso é bem mais limitada do que se esperaria. Uma premissa deste trabalho é que a problemática ambiental está cada vez mais presente no cotidiano das sociedades modernas e que posições favoráveis ao “ecologica-mente correto” são, de forma progressiva, reconhecidas como válidas por essas sociedades. De acordo com Soromenho-Marques (1994, p. 86-87), o ecologismo se fez sentir, nas duas últimas décadas do século XX, em cinco domínios: • domínio político-partidário: notadamente o surgimento de partidos verdes;  170Fonseca e BursztynAmbiente & Sociedade  ■ Campinasv. X, n. 2  ■ p. 169-186  ■ jul.-dez. 2007 • domínio cívico não-governamental: marcado pelo surgimento de muitas e grandes orga -nizações; • domínio científico-pedagógico: caracterizado pelo grande interesse despertado pelos temas ambientais no campo das ciências e na academia; • domínio comunicacional e informativo: que expressou uma adesão de grandes veículos da mídia a temas ambientais; e • domínio ético e filosófico, seguramente o que menos avançou no período. No Brasil, até os anos 1970, o ambientalismo arregimentava um número limitado de pessoas, pertencentes a pequenos grupos da sociedade civil e do Estado (VIOLA, 1997). Tais minorias ocupavam posições reservadas especificamente para a questão ambiental dentro da estrutura do Estado Federal e em algumas unidades da federação. Nas décadas de 1980 e 1990, o lócus do ambientalismo foi ampliado. Não mais se restringia às agências ambientais estatais e a movimentos ambientalistas organizados da sociedade civil. A problemática ambiental foi incorporada por universidades, por empresas, pela mídia em geral e por órgãos do poder público que não são especificamente ambientais.Santilli (2005, p. 48), evocando as primeiras pesquisas de percepção ambiental do brasileiro, coordenadas por Samyra Crespo, assinala que, após a conferência Rio-92, cres-ceram a consciência e a adesão da população à causa ambientalista. Diversas organizações não-governamentais passaram a atuar na área ambiental e o “mercado verde” ganhou rele-vância, com o uso de algumas tecnologias sustentáveis no processo produtivo e a criação de mecanismos de certificação ambiental, como o selo ISO 14000. Nesse contexto, multiplica-se a adesão de grupos e instituições à temática e a promoção da “ideologia” ambientalista 1  torna-se mais consistente (RIBEIRO, 1991, p. 84), enraizando-se inclusive no nível das políticas públicas e do planejamento do desenvolvi-mento.Para efeito de avaliação do nível de assimilação do discurso ambiental no Brasil, tomamos como representativa a pesquisa “O que os brasileiros pensam sobre a biodiversi-dade 2 ”, que assinala, entre suas conclusões, que (CRESPO, 2006, p. 6-7): • considerando o período de 1992 a 2006, podemos afirmar que cresceu significativamente a consciência ambiental no Brasil; • essa expansão e crescimento ocorre de modo pouco diferenciado em todas as regiões e se distribui homogeneamente em todos os grupos populacionais – destacando-se somente aqueles que apresentam maior escolaridade, associada à maior renda e à residência em cidades de maior porte; • no global, também não faz diferença no padrão de respostas, as variáveis de gênero e religião; e • nas questões específicas sobre “biodiversidade”, a rodada de pesquisa de 2006 revelou o surpreendente domínio do conceito por parte expressiva da população, bem como sobre o repertório de temas relacionados.Uma última conclusão da pesquisa ressalta que “ o crescimento da consciência – espantoso e animador – não é acompanhado na mesma medida de comportamentos que indiquem mudanças significativas de hábitos ou atitudes. ” (CRESPO, 2006, p. 7, grifo nosso). Sendo assim, “a causa ambiental reúne elevado grau de consenso, mas isto  171Mercadores de moralidade: A retórica ambientalista e a prática do desenvolvimento sustentávelAmbiente & Sociedade  ■ Campinasv. X, n. 2  ■ p. 169-186  ■ jul.-dez. 2007 não impede que a natureza continue sendo degradada em ritmo acelerado” (BURSZTYN, 1995, p. 97). Se a consciência ambiental é generalizada, tanto individual quanto coletivamente; se termos como desenvolvimento sustentável e sustentabilidade fazem parte da elaboração de políticas governamentais; se a mídia dá amplo espaço à questão; se questões voltadas ao entendimento do tema estão presentes nos currículos escolares; se cursos superiores de graduação e pós-graduação relacionados à gestão sustentável do ambiente e dos recursos naturais proliferam; se leis ambientais são publicadas diariamente; se o mercado verde, o ecoturismo e a certificação ambiental são cada vez mais importantes nas práticas empresa-riais modernas; e se o cidadão médio apresenta conhecimento dos problemas ambientais e de maneiras de combatê-los; então por que o mundo continua o mesmo?Explicar a diferença entre discurso e prática é complexo e muitas variáveis devem ser levadas em conta; porém, a raiz dessas variáveis se encontra no domínio ético. A pers-pectiva sociológica mostra-se relevante na análise de tal diferença, pois a problemática em foco apresenta uma relação sui generis  entre normas sociais e interesses individuais, que pode ser melhor explicitada utilizando o referencial teórico dessa disciplina. É o que procuramos fazer nas páginas seguintes. 2  As normas sociais e os interesses individuais 2.1 O mercado dos bens simbólicos Segundo Bourdieu (1983), os campos sociais seriam   espaços onde são travadas lutas concorrenciais entre atores em torno de interesses específicos que caracterizam uma deter-minada área. O campo é estruturado pelas posições objetivas ocupadas pelos atores, que são determinadas pela posse de capital específico ao campo. A natureza do capital depende dos interesses e dos objetos em disputa em seu interior, que são guiados por uma racionalidade típica de cada campo em particular. Os atores elaboram estratégias para maximizar os lucros simbólicos e atingir posições dominantes na arena de disputa. O que está em jogo é a luta pelo monopólio de dizer o que é ou não considerado verdade universal dentro do campo. A posse desse capital leva a posições simbolicamente vantajosas, que permitem ao ator ditar as regras do campo. Aqueles que ocupam as posições dominantes determinam os modos de pensar, sentir e agir do campo, bem como a crença na validade das “verdades universais” da temática em foco, em determinado recorte espaço-temporal. A mudança dessas verdades universais pressupõe uma alteração entre as posições da arena e uma redistribuição do capital.A questão ambiental está se conformando em um campo relativamente autônomo 3 , que define seus critérios internos, suas regras de funcionamento e um modo de agir, sentir e pensar típico, em disposições duráveis do sujeito (o habitus 4   do campo). O que está em jogo no campo ambiental são as próprias representações sociais do que significaria o meio ambiente e como são estabelecidas as relações ontológicas construídas sobre seres humanos e natureza.  172Fonseca e BursztynAmbiente & Sociedade  ■ Campinasv. X, n. 2  ■ p. 169-186  ■ jul.-dez. 2007 [...] o campo ambiental em construção, sempre perpassado e alimentado pelos demais campos sociais e funcionando como um amplo, dinâmico, fluído, instável e heterogêneo espaço de debate onde tendem a se concen-trar as disputas sobre que discursos/ações deveriam ser instituídos como sendo os mais “verdadeiros” ou, no mínimo, mais “competentes”, faz com que determinadas idéias, conceitos e práticas possam naturalizar-se e, concomitantemente, sejam vistas como ambientalmente corretas. (GERHARDT; ALMEIDA, 2005, p. 4). Nas lutas internas aos campos sociais é gerado seu capital próprio. Esse quantum  socialmente valioso (em princípio de várias formas, podendo ser econômico, político, cultural etc.), pode ser traduzido em capital simbólico. “O capital simbólico não é outra coisa senão o capital econômico ou cultural quando conhecido e reconhecido” ( BOURDIEU, 1990, p. 163). Ele é “as formas de que se revestem as diferentes espécies de capital quando perce-bidas e reconhecidas como legítimas” (ibid., p. 154).O alinhamento a determinados valores comuns é gerador de capital simbólico, pelo fato de que promover tais valores gera reconhecimento, que é base do capital simbólico. Os valores sociais dominantes são aqueles que, ao serem incorporados ao senso comum de determinada sociedade, geram status e prestígio àqueles que o professam e praticam corre-tamente. A adesão do indivíduo às normas sociais, faz com que esse ator “esteja em dia com a sociedade”. Com isso, o ator fortalece as normas sociais, mas também valoriza a si mesmo como promotor de ações socialmente legitimadas. Da mesma forma, o não apoio a essas normas gera descrédito social. Essa relação entre as normas sociais e os indivíduos, e as estratégias destes para maximizar os lucros simbólicos, que são específicos da esfera social (WEBER, 1981) - como honra, prestígio etc. - fazem parte do “mercado dos bens simbó-licos” (BOURDIEU, 1974).O ambientalismo, por seu elevado consenso e por sua legitimação simbólica, está presente nas normas sociais da sociedade moderna. Dessa maneira, o apoio discursivo e a prática de ações “pró-ambiente” são fontes geradoras de capital simbólico. Ter o discurso ambientalista como norma social, passível de gerar lucro ou prejuízo simbólico, possibilita que o fato de dizer-se “ambientalmente correto” possa ser uma estra-tégia de determinados atores sociais, visando posições socialmente (e economicamente) vantajosas. Vale lembrar que o capital simbólico gerado nas lutas internas do campo ambiental pode, como ocorre com as diversas espécies de capital, ser transmutado (em suas devidas proporções) em capital cultural, econômico, político etc.É nesse contexto que podemos compreender a posição de empresas que apóiam iniciativas de proteção ao meio ambiente. O objetivo principal de uma empresa, nas econo-mias de mercado, é o aumento de seu capital econômico e sua continuidade ao longo do tempo. Para as empresas, o capital simbólico proveniente do apoio e da promoção de ações “ecologicamente corretas” pode ser convertido em capital econômico. O marketing ambiental, selos como o ISO 14000, investimentos na conservação do meio natural e a promoção de tecnologias que levem em conta a questão ambiental, são exemplos da busca do lucro econômico mediante a aquisição de capital ambientalista.  173Mercadores de moralidade: A retórica ambientalista e a prática do desenvolvimento sustentávelAmbiente & Sociedade  ■ Campinasv. X, n. 2  ■ p. 169-186  ■ jul.-dez. 2007 Outro exemplo pode ser retirado do campo político. O capital ambiental pode influenciar o meio político. Nas sociedades democráticas, a manifestação pró-ambiente, ao angariar apoio de instituições e indivíduos ligados ao campo ambiental, gera capital simbó-lico que pode ser transmutado em capital político. A eleição de candidatos com plataforma ambientalista e o fortalecimento de partidos verdes em países como França e Alemanha mostram como o capital ambientalista pode influenciar o campo político.Em suma, ser favorável ao meio ambiente gera lucro simbólico na esfera social. O capital proveniente dessa postura, além de ser central nas dinâmicas internas do campo ambiental, também pode influenciar outros campos sociais. Bourdieu afirma que os atores elaboram estratégias para aumentar o seu capital global 5 , pois isso permite que esses indiví-duos ocupem posições dominantes nas sociedades modernas. O capital ambiental entra na soma global de capital e é meio de alcançar essas posições, por intermédio das vantagens simbólicas adquiridas por aqueles que o possuem. Ressalta-se que o apoio às normas sociais com vistas ao lucro simbólico daí resul-tante não necessita, em princípio, ter reflexos nas ações cotidianas dos indivíduos. O aplauso discursivo às normas gera efeitos simbólicos semelhantes à aplicação prática das mesmas. É claro que a prática da norma reafirma a adesão discursiva a ela, mas somente a prova de que tal apoio discursivo não corresponde a ações práticas pode prejudicar o capital simbólico acumulado pelo discurso. A máxima de que “todos são inocentes até provado o contrário” é válida aqui. O apoio discursivo às normas continua sendo fonte de lucro simbó-lico e o estigma de ser um “desviante social” é evitado, enquanto não é posto em evidência que tal apoio não corresponde a ações efetivas. 2.2 O estigma e os valores sociais dominantes A ação individual influencia as normas sociais. Na seqüência, as próprias normas têm efeitos sobre as ações. Segundo Coleman apud  Aquino(2000, p. 20), uma teoria social é composta de três momentos: 1) momento inteiramente situado no nível micro, onde se dá a compreensão das ações sociais praticadas por indivíduos; 2) momento de transição do nível micro para o nível macro, onde se expõe como eventos individuais podem resultar em mudanças sociais; e 3) momento de transição do nível macro para o nível micro, ou seja, a influência de aspectos da sociedade sobre os indivíduos. As normas sociais são geradas e modificadas no decorrer desses momentos. Por conseguinte, “as normas sociais são construtos situados no nível macro, baseadas em ações racionais no nível micro, mas criadas sob certas condições através de uma transição micro-para-macro” (ibid., p. 20).Para Goffman (1982, p. 7), o estigma é “a situação do indivíduo que está inabilitado para a aceitação social plena”, pela incapacidade de agir em sintonia com o roteiro padrão de ações socialmente aceitáveis em determinada sociedade. O estigmatizado é relacionado a características próprias que possuem uma valorização negativa na esfera social. É visto como
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