Manuel Bandeira ã A poesia como uma saída para o desconsolo da doença.

Description
Manuel Bandeira • A poesia como uma saída para o desconsolo da doença. • Literatura: reflexão sobre a vida, falando sobre suas memórias de menino, registrando cenas do cotidiano e, acima de tudo, aprendendo a lidar com a ameaça da doença e da morte.

Please download to get full document.

View again

of 9
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Information
Category:

Documents

Publish on:

Views: 14 | Pages: 9

Extension: PDF | Download: 0

Share
Transcript
Manuel Bandeira• A poesia como uma saída para o desconsolo da doença.• Literatura: reflexão sobre a vida, falando sobre suas memórias de menino, registrando cenas do cotidiano e, acima de tudo, aprendendo a lidar com a ameaça da doença e da morte.• Umas das inovações é o uso que faz da linguagem na apresentação das situações cotidianas. • A capacidade de ver as cenas prosaicas, as situações mais banais do dia-a-dia filtradas por lentes líricas e de recriá-las poeticamente por meio de uma linguagem simples são as características mais marcantes de sua poesia.Libertinagem• O poeta atinge plenitude de tema e linguagem, tocando a essência do coloquial com uma simplicidade propositada.• A técnica de versos livres está profundamente presente, e a temática esbarra ora na melancolia, ora na ironia, na interiorização de vultos familiares, no contexto do dia-a-dia, nas paisagens brasileiras e até em suas preocupações estéticas na poesia.A evocação do passado• As memórias da infância vivida no Recife têm lugar especial entre os poemas de Bandeira. Cenas de rua, pessoas com quem conviveu vão revivendo em versos inesquecíveis.Evocação de RecifeRecife Não a Veneza americanaNão a Mauritsstad dos armadores [das Índias Ocidentais]Não o Recife dos MascatesNem mesmo o Recife [que aprendi a amar depois] - Recife das revoluções libertáriasMas o Recife sem história nem literaturaRecife sem mais nadaRecife da minha infância[...]Rua da União onde todas as tardes [passava a preta das bananas]Com o xale vistoso de pano da CostaE o vendedor de roletes de canaO de amendoimque se chamava midubim [e não era torrado era cozido]Me lembro de todos os pregões:Ovos frescos e baratosDez ovos por uma patacaFoi há muito tempo...A vida não me chegava pelos jornais [nem pelos livros]Vinha da boca do povo na língua errada do povoLíngua certa do povoPorque ele é que fala gostoso [o português do Brasil]A morte como libertação• O poema torna-se o espaço de reflexão no qual a doença e a morte, fantasmas “reais” da vida de Bandeira, transformam-se em experiência lírica e reflexiva, ganhando uma dimensão universal.• A descoberta de que a vida de que a vida não tem finalidade é feita sem drama ou sofrimento, e é essa descoberta que permite constatar a morte como libertação final da matéria. • Sua obra vai além dos limites históricos para tematizar angústias e conflitos humanos de natureza universal, como o amor, a paixão pela vida, a saudade de uma infância idealizada e o medo da morte. Momento num caféQuando o enterro passou Os homens que se achavam no café Tiraram o chapéu maquinalmente Saudavam o morto distraídos Estavam todos voltados para a vida Absortos na vida.Um no entanto se descobriu num gesto longo e demorado Olhando o esquife longamente Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade Que a vida é traição E saudava a matéria que passava Liberta para sempre da alma extinta.PneumotóraxFebre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.A vida inteira que podia ter sido e que não foi.Tosse, tosse, tosse.Mandou chamar o médico:— Diga trinta e três.— Trinta e três... trinta e três... trinta e três...— Respire....................................................................................................................................................— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.Poema tirado de uma notícia de jornalJoão Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão[sem número.Uma noite ele chegou no bar Vinte de NovembroBebeuCantouDançouDepois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.Deito na beira do rioMando chamar a mãe-d'águaPra me contar as históriasQue no tempo de eu meninoRosa vinha me contarVou-me embora pra PasárgadaEm Pasárgada tem tudoÉ outra civilizaçãoTem um processo seguroDe impedir a concepçãoTem telefone automáticoTem alcalóide à vontadeTem prostitutas bonitasPara a gente namorarE quando eu estiver mais tristeMas triste de não ter jeitoQuando de noite me derVontade de me matar— Lá sou amigo do rei —Terei a mulher que eu queroNa cama que escolhereiVou-me embora pra Pasárgada.Vou-me embora pra PasárgadaVou-me embora pra PasárgadaLá sou amigo do reiLá tenho a mulher que eu queroNa cama que escolhereiVou-me embora pra PasárgadaVou-me embora pra PasárgadaAqui eu não sou felizLá a existência é uma aventuraDe tal modo inconseqüenteQue Joana a Louca de EspanhaRainha e falsa dementeVem a ser contraparenteDa nora que nunca tiveE como farei ginásticaAndarei de bicicletaMontarei em burro braboSubirei no pau-de-seboTomarei banhos de mar!E quando estiver cansadoPoéticaEstou farto do lirismo comedidoDo lirismo bem comportadoDo lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações [ de apreço ao Sr.diretorEstou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo [ de um vocábuloAbaixo aos puristasTodas as palavras sobretudo os barbarismos universaisTodas as construções sobretudo as sintaxes de exceçãoTodos os ritmos sobretudo os inúmeráveisEstou farto do lirismo namoradorPolíticoRaquíticoSifilíticoDe todo o lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.De resto não é lirismoSerá contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem[ modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres,etc.Quero antes o lirismo dos loucosO lirismo dos bêbadosO lirismo difícil e pungente dos bêbadosO lirismo dos clowns de Shakespeare— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.O bichoVi ontem um bichoNa imundície do pátioCatando comida entre os detritos.Quando achava alguma coisa,Não examinava nem cheirava:Engolia com voracidade.O bicho não era um cão,Não era um gato,Não era um rato.O bicho, meu Deus, era um homem.
Related Search
Similar documents
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks
SAVE OUR EARTH

We need your sign to support Project to invent "SMART AND CONTROLLABLE REFLECTIVE BALLOONS" to cover the Sun and Save Our Earth.

More details...

Sign Now!

We are very appreciated for your Prompt Action!

x