Entrevistas de uma história esquecida. Pequena introdução a “La represión al servicio del desarrollismo”

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  213   ENTREVISTAS DE UMA HISTÓRIA ESQUECIDA  PEQUENA INTRODUÇÃO A “LA REPRESIÓN AL SERVICIO DEL DESARROLLISMO”   Tiago de Oliveira 1 Capa do primeiro número da revista Perspectiva Revolucionária,  publicada pelos trotskistas brasileiros na França em 1975, anuncia a retomada da unificação entre as organizações Fração Bolchevique Trotskista, Outubro e Organização Comunista 1º de Maio. Fundo Periódicos/Acervo  CEDEM/CEMAP.  Foi durante o governo do ditador Garrastazu Médici (1969-1973), período de maior fechamento político, que a chamada quarta geração do movimento trotskista no Brasil deu seus primeiros passos. 2  Em 1971, duas pequenas organizações, surgidas no calor das lutas sociais de 1968, ini-ciaram sua primeira tentativa de unificação, com a formação do Comi-tê de Unificação: Organização Comunista 1º de Maio (OC1M) e Fração Bolchevique Trotskista (FBT). A iniciativa correspondia, por sua vez, ao desenvolvimento político das duas organizações, mas seus limites foram determinados pelo duro cerco repressivo imposto pelo regime no Brasil, assim como na América Latina.  Nº 13, Ano 11, 2017 214  A OC1M surgiu em São Paulo como Movimento Estudantil 1º de Maio (ME1M), em referência direta à contramanifestação na comemoração do 1º de Maio realizado na praça da Sé-SP, em 1968. 3  Tratava-se de um grupo que aglu-tinava ativistas do movimento estudantil, ao redor do principal foco de agitação àquela altura, a Faculdade de Filosofia da Maria Antônia. Sua srcem, ao con-trário do comumente apresentado, não foi uma ruptura com o Partido Operário Revolucionário-Trotskista (POR-T), tal como a FBT, mas contou, isso sim, com militantes que passaram por esse partido, como Fábio Munhoz 4  – o que deu ao ME1M, desde sua srcem, uma inspiração trotskista. O grupo sobreviveu às in-vestidas da repressão em 1969, mas perdeu grande parte dos seus membros, seja pelo exílio ou pelo afastamento da atividade política. Luiz Araújo 5 , único repre-sentante do núcleo srcinal do ME1M, com a incorporação de novos membros, deu continuidade ao grupo e em 1970, já com a denominação de Organização Comunista 1º de Maio, é estabelecida a meta que vai permear toda sua atuação política: a luta pela formação de um Partido Operário. A FBT, por outro lado, foi criada a partir da expulsão, pela direção do POR-T, de praticamente todos os militantes da regional no Rio Grande do Sul – os gaúchos contestaram o controle político do partido por Posadas e seus apoiadores diretos. 6  Razão pela qual escolheram a denominação “fração” e, inicialmente, mantiveram sua atenção para esse partido e sua Internacional. Mas coube à FBT, em 1969, a iniciativa de romper o isolamento político dos trotskistas brasileiros em relação ao movimento pela Quarta Internacional. Esse isolamento era o resultado do predomínio exclusivo do POR-T, desde os anos 1950, no movimento trotskista no Brasil. Na Europa, Vito Letizia 7 , repre-sentante da FBT, estabeleceu contato com partidos trotskistas da França, Itália e Inglaterra, o que lhe possibilitou o início de uma compreensão mais ampla a respeito do movimento internacional e uma problematização do significado e do alcance das posições que defendia Posadas. Assim, no ano seguinte, em sua 2ª Conferência, a FBT abandonou suas expectativas em relação ao POR-T e à Internacional chefiada por Posadas, avaliação que os paulistas da OC1M também compartilhavam. Após a conferência, a repressão alcança a FBT, parte de seus membros é presa ou consegue escapar e mergulhar ainda mais na vida clandestina ou partir para o exílio. Bastante fragilizada, a organização sobrevive e se reorga-niza em 1971, e logo em seguida, com a OC1M, cria o Comitê de Unificação.  A essa iniciativa se junta também o grupo Outubro, formado em Paris por militantes exilados que participaram do ME1M ou da FBT, além de brasilei-ros sem vínculos políticos anteriores. O Comitê teve vida curta, já em 1972 é encerrado com a nova repressão que se abate sobre a FBT e que, dessa vez, a desarticula completamente até 1975.  215  Nesse curto período de atividades do Comitê, um dos acordos entre os militantes da FBT e da OC1M era a não definição imediata sobre a adesão a uma das organizações do movimento pela Quarta Internacional, mas o es-tabelecimento de um programa de pesquisa sobre a história do seu movimen-to. 8  Àquela altura, este movimento estava dividido – considerando apenas as repercussões na América Latina – entre o Comitê Internacional e o Secretaria-do Unificado (e sua correspondente divisão entre maioria e minoria), traduzi-das em iniciativas de articulações vinculadas aos países do continente, como as ao redor do POR (Partido Obrero Revolucionario) boliviano e de Política Obrera (PO) da Argentina, e do Partido Revolucionario del Trabajador – La  Verdad (PRT-LV). 9  É neste marco que ocorreram as viagens dos trotskistas brasileiros a países da América Latina, Argentina, Chile e Uruguai, o contato com partidos e organizações trotskistas, a participação em cursos de forma-ção e congressos. Na Argentina, por exemplo, participaram do V Congresso do PRT-LV e de cursos de formação. Foi nesse país também que os brasileiros se reuniram com dirigentes do Socialist Workers Party (SWP) dos EUA. No Chile, encontraram-se com o dirigente do POR boliviano Guillermo Lora 10 , com a Frente de Izquierda Revolucionára (FIR), organização chilena, e com os brasileiros, lá exilados, do Grupo Punto de Partida.  Além das reuniões e trocas de publicações, ações que integravam o projeto de estudo sobre a história da Quarta Internacional, eles também realizaram entrevistas com dirigentes trotskistas latino-americanos. Há o re-gistro de pelo menos três entrevistas resultantes dessa iniciativa. Uma feita com Nahuel Moreno, 11  dirigente, à época, do PRT – La Verdad, preservada no Fundo Luiz Araújo, no Arquivo Edgard Leuenroth, na Unicamp-SP. E outras duas, com Guillermo Lora e uma com um dirigente da FIR, registradas na relação dos materiais apreendidos pela repressão no “aparelho” da FBT em São Paulo, nas quedas de 1972. É razoável supor também a realização de uma quarta entrevista com o SWP. Os brasileiros, por sua vez, também foram entrevistados. A entrevista intitulada La represión al servicio del desarrollismo , traduzida a seguir, conce-dida pelos militantes brasileiros ao jornal La Verdad , do PRT argentino, está inserida nesse contexto de atividades. É possível afirmar, pelas fontes dispo-níveis, que eles participaram do V Congresso do PRT – La Verdad, realizado em outubro de 1971, ocasião em que concederam a entrevista ao jornal e entrevistaram Moreno. Dessa aproximação, foi firmado também um acordo de ajuda da organização argentina com o Comitê, que incluía inclusive ajuda financeira, visando à unificação das organizações no Brasil. 12  O acordo esta-beleceu, como pontos iniciais programáticos e de princípios, a oposição total à estratégia guerrilheira, a necessidade de construção de partidos trotskistas e  Nº 13, Ano 11, 2017 216 a batalha pela IV Internacional. Deixava, porém, para depois do congresso de unificação a decisão dos brasileiros sobre sua filiação internacional. 13   As difíceis condições políticas, no entanto, não possibilitaram a con-tinuidade do Comitê e, consequentemente, que o acordo com os argentinos pudesse avançar. A última atividade do Comitê foi sua participação na mal-sucedida Primeira Conferência dos Trotskistas Latino-americanos, realizada no Chile em 1972, organizada pela PO argentina e pelo POR boliviano. 14  As articulações, entre os brasileiros, para a unificação, somente serão retomadas e bem-sucedidas a partir de 1975. 15  La represión al servicio del desarrollismo  é o registro das primeiras aproxi-mações dessa geração trotskista com o movimento pela Quarta Internacional.  Através dela podemos entrever a avaliação e a denúncia que faziam os trots-kistas, naquele momento, da Ditadura Militar brasileira e as perspectivas que esboçaram para a intervenção política, em que já aparece a defesa da luta pelas liberdades democráticas, posição, àquela altura, minoritária entre a esquerda revolucionária brasileira. Mostra também um grande entusiasmo com a unifica-ção, entrelaçado por um otimismo desmedido em relação às possibilidades de atuação política. Os desdobramentos imediatos à entrevista, no entanto, mostra-ram que eles estavam equivocados na apreciação da relação de forças políticas. No caso do Brasil, estávamos ainda no auge da repressão política que, pouco tempo depois, seria expandida, ou aprofundada, em vários países do continente, a começar pela Bolívia em 1971. 16  Depois de 1968, as condições para a retomada das mobilizações de massa, que eles acreditavam já se esboçar ou que não tar-daria para acontecer, levariam ainda alguns anos para ocorrer. Essas breves notas introdutórias, além de contextualizar a entrevista, servem também para desfazer um equívoco, a ser evitado, de alinhar apres-sadamente as organizações a uma suposta tradição do movimento trotskista. Traduzidas em expressões como “morenistas”, “lambertistas” ou “mandelis-tas” 17  – utilizadas posteriormente pelas organizações – incorporadas acritica-mente, e muitas vezes com viés anacrônico, em pesquisas acadêmicas sobre o trotskismo recente no Brasil. 18   A repressão a serviço do desenvolvimentismo Revista de América  nº 8/9, mayo/agosto de 1972.La Verdad  entrevistou no ano passado no Brasil os companheiros trotskistas, mem-bros da Organização Comunista 1º de Maio e da Fração Bolchevique Trotskista  217 (cisão do posadismo), que se propõem a construção de um Partido Operário Revo-lucionário. A entrevista foi publicada nos números 292 e 293 do jornal semanal. Esperamos ter reproduzido com fidelidade o pensamento dos camaradas brasileiros, vítimas, atualmente, da perseguição do regime. 19  1) Qual é a política econômica do governo brasileiro?   Cremos que o central para a compreensão da ditadura militar semifas-cista 20  está em sua política “desenvolvimentista”. Em linhas gerais, é a mesma que a traçada pela “Sorbonne” (Escola Superior de Guerra) sob a direção de Cas-telo Branco. 21  Não reivindica uma independência, ou uma certa autonomia sobre o imperialismo, mas uma integração cada mais maior com ele. É uma política que responde, fundamentalmente, aos interesses do imperialismo e dos grupos de monopólios integrados a ele. Para sua aplicação, se faz necessário um regime ditatorial com a função de “ajustar” toda a vida econômica, política e social em benefício de uma estratégia, que tem como base a produção de bens duráveis/ semiduráveis, investimentos imperialistas em novos setores industriais e volta-dos para o exterior. Isto é, despreza o mercado interno.  2) Como se adaptam a esta política a burguesia “nacional” e outros setores burgueses ou pequeno burgueses?   Até agora tem ocorrido um desenvolvimento econômico, capitalista, não nos níveis alardeados pelo governo brasileiro e pelos defensores do seu “caminho”, que beneficia somente o imperialismo, os monopólios e os setores ligados a eles, direta ou indiretamente. A grande maioria da população não é beneficiada. A burguesia nacional, por ser o setor que tem como merca-do, para seus produtos, o interno, se debilita fortemente. A diminuição da capacidade de compra da grande maioria da população diminuiu também seu mercado, determinando o fechamento de várias fábricas. Desde o início, desde Castelo Branco, este setor burguês teve duas opções: ou se integrar no “esquema desenvolvimentista”, ligando-se com o imperialismo, ou dimi-nuir seus rendimentos, transformando-se, na maioria dos casos, em pequena burguesia. É claro que se expressam “lutas” entre esse setor e o imperialis-mo. Suas críticas à ditadura estão dirigidas contra esse processo. A pequena burguesia também sofre com essa política e aqui se encontra a causa de sua esquerdização. Duas tendências se expressam nesse setor. Uma de proletari-zação e outra de incremento do seu poder de compra, tornando os produtos duráveis e semiduráveis acessíveis ao mercado interno. 3) Qual é a situação do movimento operário, camponês e popular?   O proletariado e o campesinato, grande maioria da população, não só
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