Bruno, não Franz: a primeira onda da recepção de Ficção Completa do polonês Bruno Schulz

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O presente artigo propõe uma análise detalhada dos primeiros momentos da recepção de Ficção Completa (Cosac Naify, 2012), do escritor polonês Bruno Schulz (1892-1942), que constitui a primeira edição da totalidade da obra ficcional do autor em língua

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  Gabriel Borowski. Bruno, não Franz: a primeira onda da recepção de Ficção Completa do polonês Bruno Schulz  92 Bruno, não Franz: a primeira onda da recepção de  Ficção Completa do polonês Bruno Schulz 1 Gabriel Borowski  Resumo:  O presente artigo propõe uma análise detalhada dos primeiros momentos da recepção de Ficção Completa  (Cosac Naify, 2012), do escritor polonês Bruno Schulz (1892-1942), que constitui a primeira edição da totalidade da obra ccional do autor em língua portuguesa. Por meio de um estudo das circunstâncias da sua publicação e das primeiras repercussões críticas, este trabalho visa lançar uma luz sobre o processo da construção da imagem do autor traduzido na cultura de chegada, com uma ênfase particular na função dos contextos preexistentes enquanto componentes de um quadro receptivo mais complexo. O ensaio sublinha também a importância do tradutor enquanto expert   e orientador, ou seja, um agente ativo no processo de recepção. Palavras-chave:   Bruno Schulz, tradução literária, recepção, literatura polonesa . Seu parentesco com Kafka tanto pode abrir como fechar-lhe o caminho. Se disserem que é mais um primo, está perdido.  Witold Gombrowicz (  apud SCHULZ, 2012, p. 391) “A viagem para o mundo” (STALA, 1995, p. 24) ou “a carreira póstuma de Schulz no exterior” (   JARZĘBSKI, 1998, p. CXXVI  ), iniciadas no nal da década de 50, constituem, sem dúvida, um dos campos mais diversicados e ricos para a pesquisa sobre a recepção da literatura polonesa em realidades linguístico-culturais muito diferentes. Traduzida para pelo menos quarenta idiomas 2 , a obra literária 1 Texto srcinalmente publicado em língua polonesa na revista “ Przekładaniec : A Journal of Translation Studies” (27/2013), publicada pela Universidade Jaguelônica em Cracóvia (Polônia). 2  Cf.  a página eletrônica: http://www.brunoschulz.org/wydania.htm. Consulta realizada a 20 de de-zembro de 2015.  Cadernos de Literatura em Tradução , n. 17, p. 92-11093 de Bruno Schulz foi repetidamente sujeita a um processo de inserção em vários sistemas literários, o que sempre implicava em uma negociação de sua posição dentro do espaço da cultura-alvo (  cf.  EVEN-ZOHAR, 1990). A criação inovadora do autor polonês pode constituir uma componente ativa no sistema de chegada enquanto um ponto de partida para a ampliação do repertório de formas e temas disponíveis. Como observa Krzysztof Stala: Em muitos países Schulz é considerado um escritor totalmente “contempo -râneo”, ainda estimulante e intrigante. Na Espanha costuma ser enumerado junto com Kafka e Musil como um dos inspiradores da renovação da cção espanhola nos anos oitenta; na Suécia, os melhores escritores falam do seu deslumbre com traduções relativamente (1983, 1987) recentes; John Updike analisa a sua obra comparando-a com Borges, Proust, Kafka, Danilo Kiš. O recluso de Drohobych está se tornando gradativamente um “cidadão do mundo”. (STALA, 1995, p. 24) Schulz consegue a sua “cidadania mundial” através da inserção em novas realidades culturais, realizada no processo de recepção, que leva, entre outros, à identicação de contextos e analogias que permitam situar o texto em um continuum   histórico-literário e crítico da cultura-alvo. Sustentam-se, desse modo, as palavras de Aleksander Fiut:  A escrita do autor de  As lojas de canela  , antes de ganhar o direito a uma cidadania própria e de ser considerada e reconhecida no seu caráter ini-gualavelmente distinto, srcinal e singular, chegará à opinião internacional por meio de outras leituras mais conhecidas ou assimiladas há muito mais tempo. (FIUT 2003, p. 497) Como se realiza esta “entrada no imaginário” (  FIUT,  2003 p. 498)? Qual é a dinâmica da assimilação da cção idiomática do escritor polonês? Será que as manifestações desse processo podem ser apontadas e descritas? Desde as primeiras traduções de Schulz, evocadas por Stala (1995, p. 24) – para o espanhol (1962) 3 , inglês (1958) e sueco (1962), entre outras – já passou mais de um meio século. O 3 É interessante observar, aliás, que as primeiras traduções de Schulz para a língua espanhola foram publicadas na América Latina. Segundo os dados no site http://www.brunoschulz.org, as primeiras tra -duções de textos esparsos foram editadas na Venezuela (1962), na Colômbia (1962), na Argentina (1965) e no México (1967). Em 1972, foi publicado, na Argentina, o volume La calle de los cocodrilos (traduzido por E. Gohre) e, em Barcelona, Las tiendas de color canela (traduzido por S. Puig).  Gabriel Borowski. Bruno, não Franz: a primeira onda da recepção de Ficção Completa do polonês Bruno Schulz  94 prefácio de John Updike, de 1978, bem como o “deslumbramento” dos suecos e espanhóis, são fatos ocorridos há cerca de trinta anos. Será que Bruno Schulz ainda consegue estimular e intrigar o leitor estrangeiro? Quais são as deformações contextuais do seu perl e da sua obra em realidades que possuem um arquivo histórico e literário diferente? No caso dos sistemas literários em que a cção de Schulz está presente há décadas (como acontece com os leitores das traduções inglesas, suecas, espanholas, francesas etc.), os assuntos mencionados levam (já) a uma indagação sobre a história   da recepção do autor de  As lojas de canela  , ou seja, equivalem a um convite a pesquisas bibliográcas (aliás, muito interessantes tam - bém). Nesse caso, a distância temporal que separa o pesquisador do seu objeto permite a constituição de uma perspectiva em que as pistas são enxergadas de uma maneira regressiva em relação às suas posteriores consequências. Este ensaio, porém, dedicado aos primeiros momentos da recepção da primeira edição completa da cção de Bruno Schulz (2012a) no Brasil 4 , é privado dessa distância temporal e visa à observação dos mecanismos da recepção “no calor do momento”. Através de uma análise das circunstâncias da publicação e das primeiras reações da crítica, procura lançar uma luz sobre algumas particularidades do processo de construção da imagem do autor traduzido, na realidade receptora, com ênfase especial nos modos de sua contextualização por meio das referências preexistentes que funcionam como um quadro de recepção. A presente análise se baseia em um modelo heurístico derivado das obser-  vações de André Lefevere (1982, p. 5), segundo o qual “[literature] is a contrived 4 Ainda que o presente artigo se concentre na realidade cultural do Brasil, convém observar que Bruno Schulz está presente também em Portugal desde a década de 70, quando saiu a antologia Contos polacos (1977) com uma tradução – indireta, através do espanhol – feita por José Saramago. Em 1983 foi publicado Tratato dos manequins  , e em 1987 – o volume completo  As lojas de canela   na tradução de Aníbal Fernandes que, infelizmente, deixa muito a desejar. A versão de Fernandes, elaborada a partir da tradução inglesa e francesa, castra a cção de Schulz no que diz respeito às suas particularidades formais. Na reedição de 2012 (SCHULZ, 2012b), é incluído um prefácio muito mal preparado, no qual, para além de lapsos oriundos da ignorância da redação (a ortograa inglesa – “Arthur” – do nome do famoso crítico polonês  Artur Sandauer, ou a moeda “zloti” – a graa segue a pronúncia inglesa – em vez de “złoty”), faltam explicações e comentários referentes à realidade polonesa (por exemplo, o que signica a abreviação “zl” – que vem do nome da moeda ocial e deve ser escrita “zł” – ou a importância da rua Floriańska, na Cracóvia – uma das ruas principais na parte mais antiga da cidade) e à sua vida artística (Witkiewicz, um dos nomes principais na cultura polonesa da época e de todo o século XX, é apresentado apenas como “outro artista plástico-escritor ou vice-versa” [SCHULZ, 2012b, p. 9] ). As informações históricas supe- ram o substrato biográco – embora Fernandes cite uma carta aberta em que Schulz chama atenção ao caráter autobiográco da sua obra – e o escritor parece retratado como uma mera vítima das turbulências históricas. A editora portuguesa aparentemente não usufruiu as experiências da primeira onda da recepção da tradução brasileira, o que poderia ter permitido evitar uma série de equívocos.  Cadernos de Literatura em Tradução , n. 17, p. 92-11095 system, i.e. it consists of both objects (texts) and people who write, refract, distribute, read those texts.” É decisiva, portanto, uma análise da atividade das instâncias que desempenham um papel regulador dentro do sistema (isto é, exer -cem “patronagem”) e são responsáveis pela “refração”, ou seja, a deformação resultante de uma negociação entre o sistema de partida e o sistema de chegada, contemplando as suas limitações (  cf. LEFEVERE, 1982). O objetivo deste ensaio consiste, portanto, na apresentação das ações dos agentes de patronagem (comen-tários públicos de críticos literários, ensaístas, professores, acadêmicos etc.) e na exposição do papel do tradutor enquanto um sujeito que exerce uma inuência ativa sobre o processo da recepção (  cf.  MILTON, BANDIA, 2009) e da criação do cânone da literatura traduzida no exterior (  cf.  WILCZEK, 2011). Tradutor como orientador Em 21 de dezembro de 2012, o suplemento “Caderno 2” de “O Estado de S. Paulo” publica uma síntese do ano, acompanhada por um resumo dos acon-tecimentos mais importantes em dez categorias. No campo da literatura, Ficção Completa de Bruno Schulz, editada havia seis meses, ocupa o primeiro lugar, supe-rando, entre outros, as novas traduções de Ulisses  , de James Joyce, e de O arco e a lira  , de Octavio Paz, as novas edições de  A comédia humana  , de Balzac, e de Laranja mecânica  , de Burgess, e as primeiras traduções brasileiras de Contra o dia  , de Thomas Pynchona, O sentido de um m  , de Julian Barnes e Um olhar sobre Giacometti  , de David Sylvester (  BRASIL, 2012, p. D6) 5 . Há apenas dois livros de autores nacionais neste destaque: uma estréia (José Luiz Passos) e uma reedição (Pedro Nava) 6 . 5 A ordem desta enumeração não corresponde à ordem apresentada no jornal, que é a seguinte: 1. B. Schulz, 2. J. Joyce, 3. H. Balzac, 4. T. Pynchon, 5. D. Sylvester, 6.  J.L. Passos, 7. P. Nava, 8. O. Paz, 9. A. Burgess, 10. J. Barnes.6 Se considerarmos este ranking enquanto representativo para a tendência geral presente no sistema literário brasileiro, ele pode servir de base para uma hipótese pertinente do ponto de vista da análise da recepção da obra de Bruno Schulz no Brasil. A desproporção entre a literatura nacional e a as traduções, bem como o caráter inovador, muitas vezes experimental das obras traduzidas (Joyce, Paz, Burgess, Pynchon) indicam que a literatura traduzida não se situa na periferia do sistema literário local, mas antes constitui nele um elemento importante, responsável pela ampliação do repertório de formas e temas disponíveis. No sistema literário no Brasil – um sistema relativamente ainda “novo”, “periférico”, “fraco” (  cf.  EVEN--ZOHAR  , 1990) – a literatura traduzida introduz (estréias) ou atualiza (reedições) forças transformadoras, inclusive novos códigos e padrões composicionais, que, como sugere a retrospectiva de 2012, são muito apreciados pelo público e pelos críticos desejosos de novidades. A cção de Schulz, que “enxergado de um certo ponto de vista (...) ca (...) no topo dos inovadores da cção polonesa (e mundial) da primeira metade do nosso século [XX]” (JARZĘBSKI , 1998, p. cvi), harmonizaria com esta tendência. Caso não  Gabriel Borowski. Bruno, não Franz: a primeira onda da recepção de Ficção Completa do polonês Bruno Schulz  96 Em uma nota muito sucinta sobre Ficção Completa lê-se que “ancorado pelas culturas polonesa, judaica e alemã, Bruno Schulz (...) escreveu uma obra curta, mas intensa, traduzida por Henryk Siewierski e editada pela Cosac Naify” (  BRASIL , 2012, p. D6). Vale lembrar que a editora paulista, fundada em 1997, é responsável pelo lançamento de obras-primas da literatura mundial, como escritos de Victor Hugo, Lev Tolstói ou Herman Melville 7 . Um destaque especial no seu catálogo é a coleção “Prosa do Mundo”, iniciada em 2000, apresentada pela editora da seguinte maneira:  A Prosa do Mundo reúne clássicos e obras de grande importância da lite -ratura estrangeira ainda desconhecidas no Brasil. Em tradução direta do srcinal, com preciosos textos complementares de autores como Roland Barthes, Henry James, Julio Cortázar e Tarsila do Amaral, os livros for-mam uma biblioteca essencial para leitores ávidos por literatura e cultura e apreciadores de belas edições. 8 Na prestigiosa coleção foram lançadas obras de Tolstói, Pirandello, Beckett, Brecht, Mauriac, Tchekhov, Melville, Bataille, Stendhal, Flaubert, Jünger, Canetti, Breton e Stevenson, entre outros. Ficção Completa  , editada em 2012, inaugura um novo decênio da existência da série. A inclusão da obra de Schulz na “Prosa do Mundo” constitui um quadro de referência para os possíveis leitores, comunicando que o autor pertence a um grupo de elite, composto por clássicos da literatura mundial. As circunstâncias da publicação sugerem também que o público-alvo da tradução constitui leitores exigentes, “eruditos”, apreciadores de clássicos, e ao mesmo tempo abertos a padrões composicionais e linguagens poéticas oriundos do exterior. O preço do volume também não deixa de ser signicativo: R$ 89,00 que parece ser um valor acessível somente pelas camadas mais altas da sociedade brasileira. 9 haja outra indicação, as traduções das fontes citadas da língua polonesa para o português são da respon-sabilidade do autor deste ensaio. 7 Veja o site ocial da editora: https://editora.cosacnaify.com.br. Consulta realizada em 20 de dezembro de 2015.8 https://editora.cosacnaify.com.br/SubHomeSecao/566/Prosa-do-Mundo.aspx . Consulta realizada em 20 de dezembro de 2015.9 Autor de uma das resenhas que serão mencionadas mais adiante considera o preço do volume “o único defeito [...] que, embora possa ser economicamente justicável, é digno de lamento como empecilho à circulação da obra de um gênio. Schulz é bom demais para se restringir às estantes da elite” (RODRI - GUES, 2012). Vale observar, porém, que a Cosac Naify regularmente oferece descontos a 30-40%. (Desde
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